Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Passado dificulta candidatura do Japão à ONU

Segunda, 04 de Abril de 2005 às 07:12, por: CdB

O sentimento antijaponês na China e na Coréia do Sul, que sofreram com o passado militarista de Tóquio, pode prejudicar a candidatura do Japão a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), segundo analistas.

- Quando a China diz que você não pode tornar o Japão membro permanente no Conselho de Segurança da ONU, todo mundo ouve e aquiesce - disse Yoshihide Soeya, professor de Relações Internacionais da Universidade Keio, de Tóquio.

Cerca de 3.000 manifestantes depredaram duas lojas de departamentos japonesas em Shenzhen, no sul da China, neste domingo, em protesto contra a candidatura japonesa na ONU, segundo os jornais de Hong Kong.

O que era uma campanha para o preenchimento de um abaixo-assinado se transformou em passeata, com dezenas de pessoas nas ruas gritando contra a candidatura japonesa e pedindo um boicote aos produtos do país.

Também houve violência no último sábado em Chengdu, sudoeste da China, onde os manifestantes quebraram as vidraças de um supermercado japonês antes que a polícia interviesse, segundo uma autoridade japonesa.

Milhões de chineses já assinaram um manifesto pela Internet contra a vaga japonesa na ONU.
Pequim por enquanto se limita a dizer que prefere a entrada de mais países em desenvolvimento no Conselho de Segurança. A China, um dos cinco membros permanentes atuais, tem poder de veto no Conselho.

Ávido por ter uma influência diplomática igual ao seu tamanho econômico, o Japão faz campanha pela vaga há cerca de dez anos. O país paga cerca de 20 por cento da conta da ONU, mas não tem espaço permanente no colegiado de 15 países que toma as decisões sobre guerras, sanções e operações de paz.

Uma primeira vitória para Tóquio veio em março, quando o secretário-geral Kofi Annan apresentou sua proposta para ampliar o Conselho de 15 para 24 vagas, o que parece abrir espaço para a presença definitiva do Japão.

Durante suas visitas a Tóquio, autoridades estrangeiras, como a secretária de Estado dos EUA Condoleezza Rice, o presidente francês, Jacques Chirac, e o chanceler da Austrália, Alexander Downer, mencionaram seu apoio à candidatura japonesa.

O assunto também deve estar na agenda da viagem do primeiro-ministro Junichiro Koizumi à Índia, que ocorrerá ainda neste trimestre. Japão, Brasil, Alemanha e Índia, todos interessados em uma vaga definitiva, formaram um bloco para apoiar mutuamente as candidaturas.

Mas essa ofensiva diplomática foi mal vista na China, cujas relações com o Japão são cada vez mais frias desde a posse de Koizumi, em 2001, e na Coréia do Sul, onde uma disputa territorial de várias décadas se transformou em incidente diplomático.

O embaixador sul-coreano na ONU, Kim Sam-hoon, disse a jornalistas na semana passada:

- Não vejo que o Japão tenha qualificação para se tornar membro permanente do Conselho de Segurança, e vamos tentar impedir que isso aconteça - disse.

Kim posteriormente atenuou seus comentários, afirmando a uma TV de seu país que não se referia a nenhum país em especial. Mas acrescentou:

- Sei muito bem que há uma opinião pública no nosso país de que o Japão não merece a confiança e o apoio de países vizinhos e não se arrepende de seu passado, então há um limite ao papel de liderança do Japão na comunidade internacional."

Alguns críticos dizem que Koizumi valorizou demais as relações com os EUA em detrimento da Ásia e não conseguiu entender a irritação que provocou na China e na Coréia do Sul por suas visitas ao templo de Yasukuni, onde criminosos de guerra japoneses são homenageados ao lado de mortos em conflitos.

- O Japão dá a impressão de que é meio que não-especializado nestas questões diplomáticas", disse Takashi Inoguchi, professor de Assuntos Internacionais na Universidade Chuo.

-De certa forma, o governo japonês deveria agir com mais habilidade - ressaltou.

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