Os partidos da base aliada que mais traíram o governo na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados foram também os maiores beneficiados no pagamento das emendas individuais do Orçamento de 2004.
Um documento obtido pela Reuters --produzido a partir de um levantamento do Siafi (Sistema de Acompanhamento de Gastos do Executivo Federal) na Comissão Mista de Orçamento do Congresso-- mostrou que legendas como o PTB e PP foram as campeãs no recebimento de recursos da União destinados a programas e obras nos redutos eleitorais até o momento.
Esses foram os partidos proporcionalmente mais beneficiados com a liberação de emendas parlamentares individuais. Em 2004, foram apresentadas emendas no valor de 812,8 milhões de reais. Desse total, o governo liberou 150,2 milhões de reais.
"Mesmo recebendo mais, esses parlamentares não tiveram suas demandas atendidas, é longe do que o governo prometeu. Por isso que o percentual de traição foi de quase 100 por cento em alguns casos", argumentou nesta quinta-feira o deputado Rodrigo Maia (PFL-RJ), líder da bancada na Casa.
O PTB foi o partido que mais recebeu dinheiro orçamentário. Do total de 59,7 milhões de reais em emendas individuais apresentadas, 19,05 milhões de reais, ou 31,9 por cento do total, foram pagas.
Isso não impediu, porém, que seu comportamento em plenário revelasse um partido dividido na mais importante votação para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O líder da sigla, deputado José Múcio (PTB-PE), afirmou que seu partido apresentou um dos "maiores coeficientes de fidelidade".
Por sua estimativa, cerca de 23 parlamentares petebistas votaram no candidato oficial do Planalto, Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP). A bancada, no dia da votação, tinha 50 deputados. Ele atribuiu esse desempenho à "precária relação do Executivo com Legislativo".
Em segundo lugar, o PP de Severino Cavalcanti obteve 24 por cento das emendas individuais liberadas e não conseguiu ajudar a levar Greenhalgh ao posto. Ao contrário, votou em peso contra o nome do PT.
"(Esse relatório) enfraquece o argumento de que o governo não cumpre o que vem prometendo", disse o deputado Professor Luizinho (PT-SP), líder do governo.
Mas há quem reclame muito do ritmo e do volume das liberações de dinheiro. Dos 5,2 bilhões reais de emendas individuais e coletivas aprovados no Orçamento para atender Estados e municípios, o governo se comprometeu a pagar somente 2,8 bilhões reais.
Do total, apenas 1 bilhão foi efetivamente liberado até agora, representando 19 por cento de tudo o que foi aprovado na lei orçamentária. Outro 1,1 bilhão de reais referentes a restos a pagar de anos anteriores a 2004 também foram quitados.
Para oposição, a fatia do bolo é menor. O PSDB, por exemplo, conseguiu receber apenas 9 por cento das emendas apresentadas pelos deputados do partido, seguido do PFL, com 8,3 por cento, último lugar no ranking.
"Acho razoável que os partidos da base tenham o recebimento agilizado", argumentou Professor Luizinho.