Criado por decreto há 16 anos, o Parque Nacional da Chapada Diamantina, situado no interior da Bahia, permanece até hoje com metade de suas terras em poder de posseiros e pequenos proprietários rurais. Estudo da Universidade Federal de Lavras (MG), encomendado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mostra que a regularização da situação fundiária do parque - condição essencial para garantir a defesa do meio ambiente - está longe de se tornar realidade: pelo menos 50% da área total de 152 mil hectares é particular. São mais de 300 terrenos ocupados. Um destes proprietários, Maria de Lourdes Costa Souza de Jesus, de 48 anos, mostra documentos que indicam a posse das terras - onde ela já criou gado - e afirma que só abre mão do terreno em troca de uma "boa indenização". Ela acrescenta já ter sido procurada pelo Ibama. "Ultimamente tem corrido o boato de que querem desapropriar a área da cachoeira, mas tenho todos os documentos e só vendo o terreno inteiro. Agora é com os advogados." A questão da terra é um dos principais entraves para a elaboração do plano de manejo do parque, um estudo que vai determinar o zoneamento das áreas e sua utilização, a necessidade de fiscalização e as condições para que haja turismo sem prejuízo para o meio ambiente. "O Parque Nacional da Chapada Diamantina foi criado no papel por meu pai, em 1985. Agora, como responsável pela pasta do Meio Ambiente, pretendo torná-lo realidade", declarou o ministro José Sarney Filho, em discurso dias atrás na praça central do Vale do Capão, distrito de Palmeiras, um dos cinco municípios cortados pelo parque, em sua primeira visita à região. Na ocasião, Sarney assinou portaria criando o Conselho de Gestão do parque, que será responsável por definir a destinação de uma verba de R$ 5,3 milhões, a ser usada "integralmente" na regularização fundiária. "Pela primeira vez o Ibama terá uma rubrica orçamentária para isso", admitiu o ministro. O dinheiro será repassado pela empresa Enelpower, de origem italiana, que ganhou no ano passado licitação para instalar a Transmissora Sudeste-Nordeste, uma linha de transmissão de energia de 1.100 quilômetros que vai ligar os municípios de Serra da Mesa (GO) e Governador Mangabeira (BA). O repasse da verba é uma forma de compensação pelos danos causados ao meio ambiente com a instalação da linha. Pressionado politicamente, o prefeito de Palmeiras, Carlos Lopes (PTB), assinou a desapropriação do Morro do Pai Inácio - um dos principais cartões-postais da chapada, com área de 96 hectares - logo após o discurso do ministro, apesar de ter afirmado pouco antes que a decisão seria adiada. O ex-proprietário do terreno, Washington Setenta, chegou a cobrar ingresso dos turistas que visitavam o local, mas foi impedido recentemente pelo Ministério Público. A desapropriação foi estipulada em R$ 11 mil. "O ministro tem de vir aqui pelo menos duas vezes por semestre para fazer o prefeito tomar coragem de assinar as desapropriações", resumiu Sarney. Emílio Tapioca, que trabalha há 12 anos como guia na região e é um dos coordenadores da Associação dos Condutores de Visitantes da Chapada Diamantina, considera "uma conquista" a criação do conselho e a destinação de uma verba para a indenização de proprietários particulares, mas diz que ainda há muito a fazer. "Nunca houve um centavo do governo para educação ambiental", reclama Tapioca, que defende a participação efetiva de representantes de entidades ambientalistas no conselho. Ele vai lutar pela permanência das seis comunidades tradicionais que vivem na chapada, como a do Vale do Paty, com 25 famílias, instalada no centro do parque. Sarney Filho garantiu que não haverá violência na retirada dos proprietários.
Particulares detêm metade da Chapada Diamantina
Criado por decreto há 16 anos, o Parque Nacional da Chapada Diamantina, situado no interior da Bahia, permanece até hoje com metade de suas terras em poder de posseiros e pequenos proprietários rurais. Estudo da Universidade Federal de Lavras (MG), encomendado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mostra que a regularização da situação fundiária do parque - condição essencial para garantir a defesa do meio ambiente - está longe de se tornar realidade: pelo menos 50% da área total de 152 mil hectares é particular. São mais de 300 terrenos ocupados.
Quinta, 27 de Dezembro de 2001 às 00:16, por: CdB