Por Rui Martins - As suspeitas de corrupção na FIFA não são de hoje, Vêm da época de Havelange. Um projeto de lei para controlar a FIFA e outras associações não consegue se transformar em lei.
Projeto de lei para controlar a FIFA poderá ser arquivado, na sexta-feira, pelo Parlamento suíço
Não é de hoje que correm rumores sobre corrupção dentro da FIFA. Já se falava e se publicavam notícias e livros sobre isso na época do belgo-brasileiro João Havelange. Logo depois da transição Havelange-Blatter, uma denúncia contra a direção da FIFA veio do próprio secretário-geral da época, Michel Zen Ruffinen, também suíço.
Ruffinen ainda não tinha bases sólidas dentro da FIFA e sua tentativa de revolta terminou com sua demissão. Agora, novas suspeitas surgem de compra de votos dos dirigentes de federações nacionais para organização da Copa Mundial de 2022 no Qatar.
Os resultados de um inquérito a respeito, feito dentro da FIFA pela própria FIFA serão conhecidos só depois do final da Copa. O voto do Brasil teria sido também comprado ? O Mundial do Qatar será anulado, apesar de - ao contrário do Brasil - estarem avançadas as construções de estádios,nada ecológicos com microclima, por operários semi-escravizados?
Já houve uma denúncia e processo contra a FIFA no fôro judicial de Zurique, mas acabaram sendo arquivados e a justiça nega acesso à imprensa ao seu conteúdo. Será que a Justiça suíça, o governo e seu parlamento cobrem a FIFA, ajudam a descartar as suspeitas, numa espécie de cumplicidade direta ou indireta ?
Não seria de estranhar, pois a Suíça, embora goze da fama de um país acima de qualquer suspeita, como diria o sociólogo Jean Ziegler, na verdade seus banqueiros e chefes de grandes empresas e multinacionais são portadores dos mesmos genes dos vigaristas e ladrões do Brasil ou de qualquer outro país, com a diferença de serem refinados e agirem de colarinho branco e gravata ou mesmo de smoking. E uma diferença fundamental - nunca correm risco por pouco, nisso são ultra-honestos, só roubam muito, de milhões para cima.
As provas desse comportamento longe de cleptomaníaco de seus bancos são tantas que já não tentam mais desmentir, se desculpam, como qualquer ladrão-de-galinhas apanhado no galinheiro. Depois do roubo das economias dos judeus mortos no Holocausto, a Europa e os Estados Unidos descobriram, atônitos, que os bancos suíços têm departamentos devidamente formados e orientados para induzirem franceses, alemães, americanos e ricos de todos os países (inclusive do Brasil) a enganarem o fisco e, como reles receptadores, a esconderem suas fortunas nas cavernas montanhosas suíças de Ali Babá, protegidas por um povo extremamente honesto, que parece ignorar ingenuamente as mazelas da classe dirigente do seu país, mas delas desfruta.
Existe também um outro aspecto na desonestidade suíça - o de induzir políticos e empresários estrangeiros à corrupção com o pagamento de propinas, comissões em contas secretas, caixa dois para a obtenção de concorrências públicas ou investimentos privilegiados. Prática tão corriqueira que chega a envolver empresas e entidades multinacionais instaladas na Suíça, porque o governo e a justiça farão sempre vista grossa.
Atualmente existem na Suíça cerca de 60 associações, são as sedes mundiais de federações esportivas, registradas como um simples clubes. A Suíça lhes concede um estatuto privilegiado, principalmente por não serem obrigadas a publicar seu balanço de contas anuais. O fato de serem associações sem fins lucrativos lhes dá um situação confortável em termos de impostos. Para exercerem atividades lucrativas, criam sociedades anônimas sob sua direção. É o caso da FIFA em Zurique, do COI em Lausane e da UEFA em Nyon, sem falar em federações de ciclismo, de voleibol e mais cinco dezenas de outras.
Um deputado socialista de Genebra tentou criar uma lei, Carlo Sommaruga, que agora se chama a LEX FIFA, para permitir o controle automático dessas associações pelo ministério público sem necessidade de denúncia. Porém, no próximo dia 20, esse projeto de lei irá provavelmente ser arquivado, mesmo se vinha obtendo aprovações nas comissões da Câmara e do Senado. A direita suíça e o governo não querem mexer nos estatutos dessas associações esportivas que rendem milhões aos cantões, onde funcionam, com as atividades por elas promovidas.
Diante das acusações que se acumulam a cada ano, da impunidade dessas associações alguns políticos ou personalidades, como o advogado Charles Poncet, de Genebra, pedem "a dissolução da FIFA" se não aceitar se sujeitar a certas regras às quais vem se subtraindo há quase um século. A FIFA e as associações congêneres devem ter um mínimo de democracia e de controle financeiro externo, dizem os suíços escandalizados com a maneira desonesta como agem e se comportam essas entidades, algumas exercendo pressões sobre países e governos estrangeiros. No caso da FIFA, é gritante a maneira como a FIFA se assenhorou do futebol mundial e o monoplizou, assegurando-se da docilidade de governos mesmo de tendências de esquerda, como o Brasil, Outro exemplo é o COI que, na época do espanhol Samaranche, era igualmente alvo de suspeitas de corrupção, com muitos de seus membros franquistas e monarquistas.
O projeto do deputado Carlo Sommaruga, de Genebra, criando punições penais no caso de corrupção nessas associações esportivas, vinha recebendo aprovação inclusive do COI e da UEFA, como forma de preservar o futuro de suas práticas esportivas. Porém, o principal opositor, junto com partidos de direita e banqueiros é a própria FIFA, cujo dirigente Joseph Blatter almeja se eternizar como um ditador no poder, se candidatando a um quinto mandato.
Rui Martins, jornalista, escritor, editor do Direto da Redação, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, pela recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes. Foi duas vezes eleito representante no Conselho de Emigrantes, para os quais quer a emancipação política. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro publicado sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente doExpresso de Lisboa.
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