Será que Giorgio Armani poderá salvar a alta-costura francesa? A pergunta vem sendo formulada por analistas do setor bem no momento em que o veterano italiano se prepara para juntar-se a estilistas que exibem suas criações feitas sob medida em Paris, contrariando a tendência que tem levado vários nomes históricos a abandonar a alta-costura.
Emanuel Ungaro e a Givenchy mais uma vez optaram por não montar um desfile. Com isso, restam apenas quatro grifes grandes para defender a arte essencialmente francesa da alta-costura: Christian Dior, Chanel, Christian Lacroix e Jean-Paul Gaultier.
Mesmo esse pool minúsculo pode estar encolhendo, já que o grupo francês de produtos de luxo LVMH se prepara para vender a grife Lacroix, que é deficitária, e a Gaultier está no meio de um plano de reestruturação para tirar suas finanças do vermelho, após uma orgia de investimentos.
Esse clima de incerteza significa que a decisão de Armani de lançar a "Privé", sua primeira coleção completa de alta-costura, em Paris, em vez de Milão, onde mora, foi recebida com bons olhos, sendo considerada um atestado do prestígio eterno da capital mundial da moda.
"Isso prova que todas as grandes grifes também precisam de coleções exclusivas capazes de interessar a determinadas clientes, para determinadas ocasiões", comentou Didier Grumbach, que preside o organismo que representa a moda francesa.
"Acho que Armani está agindo com sabedoria, e que isso é muito bom para todos -- para ele próprio e para Paris", disse Grumbach à Reuters.
As maisons de alta-costura vão começar a expor suas coleções de primavera-verão na segunda-feira, justamente em tempo para chamar a atenção de celebridades de Hollywood à procura de modelitos exclusivos para usar na cerimônia do Oscar, em fevereiro.
No passado, as maisons francesas de alta-costura forneciam guarda-roupas inteiros a princesas e estrelas de cinema. Hoje, porém, são poucas as mulheres que têm condições financeiras de vestir apenas artigos que custam mais de 10 mil dólares e exigem centenas de horas de trabalho de equipes de costureiras altamente habilitadas.
Em 2001, numa tentativa de proteger a alta-costura, o governo francês afrouxou as normas rígidas que a regem, desde o total de "petites mains" ("mãozinhas") por oficina até o número de criações exibidas nas passarelas.
Com isso, maisons novas e menores puderam entrar para o seleto grupo da alta-costura. Na temporada atual, Adeline André e Franck Sorbier estarão expondo suas criações pela primeira vez como membros do clã.
Mas são as gigantes do luxo, como Dior e Chanel, que prometem manter o setor em operação. Ambas se comprometeram a conservar suas atividades de alta-costura, que geram publicidade para produtos de preços mais acessíveis, tais como perfumes e bolsas.
A Chanel adquiriu cinco dos mais importantes fornecedores do setor, entre eles a famosa casa de bordadeiras Lesage e a fabricante de chapéus Michel. Todos os anos ela produz uma coleção especial apenas para expor as habilidades que esses artesãos especializados vêm transmitindo de geração a geração.