Rio de Janeiro, 22 de Setembro de 2026

Paraguai deixa em aberto volta ao Mercosul

Líderes sul-americanos viajam a Assunção dispostos a convencer paraguaios a retornarem ao bloco, mas restrições de Horácio Cartes em relação à Venezuela ameaçam prolongar impasse e mal-estar entre países-membros.

Quarta, 14 de Agosto de 2013 às 15:25, por: CdB
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Líderes sul-americanos viajam a Assunção dispostos a convencer paraguaios a retornarem ao bloco
Líderes sul-americanos viajam a Assunção dispostos a convencer paraguaios a retornarem ao bloco, mas restrições de Horácio Cartes em relação à Venezuela ameaçam prolongar impasse e mal-estar entre países-membros. Horácio Cartes toma posse nesta quinta-feira como presidente do Paraguai com perspectivas de melhorar a relação bilateral com os vizinhos, abalada desde o impeachment de Fernando Lugo, em 2012. Um retorno ao Mercosul, no entanto, é ainda incerto, assim como a normalização da relação com a Venezuela, hoje na presidência temporária do bloco. O Paraguai está suspenso do Mercosul desde junho do ano passado, quando o impeachment, qualificado como golpe pelos países-membros, tirou Lugo do poder. A manobra possibilitou a entrada da Venezuela, que vinha sendo seguidamente rejeitada pelo Senado paraguaio. A postura de Cartes continua sendo a mesma sustentada desde então pelos políticos de seu partido, o Colorado: a entrada da Venezuela não se ajusta aos tratados internacionais firmados pelos fundadores do bloco. E, por isso, ele afirma que, embora a suspensão tenha fim com a sua posse, o Paraguai só voltará ao Mercosul quando o país comandado por Nicolás Maduro deixar a presidência rotativa. - O Paraguai atuará para maximizar o seu poder dentro do bloco, utilizando todos os fatores possíveis a seu favor, inclusive esse da entrada da Venezuela - afirma a cientista política Maria Izabel Mallmann, da PUC-RS. "Golpe por golpe, a entrada da Venezuela também pode ser interpretada pelo Paraguai como um golpe." A expectativa é de que Cartes promova uma gradual aproximação com os parceiros do Mercosul, importantes para a economia paraguaia. O processo deve ser conduzido de forma lenta e sem estardalhaço. Nesta quinta-feira, ele tem reuniões previstas com os presidentes de Brasil, Argentina e Uruguai, que devem tentar convencê-lo a voltar ao bloco. - Cedo ou tarde, Cartes vai negociar a adesão da Venezuela com o Senado paraguaio e promover a normalização das relações com a Venezuela - aposta o professor de Relações Internacionais Antonio Jorge Ramalho, da UnB. Flerte com a Aliança do Pacífico Durante o isolamento que sofreu por parte do Mercosul, o Paraguai, presidido interinamente por Federico Franco, foi incluído como membro observador da Aliança do Pacífico – bloco formado por Chile, Colômbia, México e Peru. Os quatro países somam 206 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) de mais de 2 trilhões de dólares, o equivalente a 35% de toda a riqueza da América Latina e mais de 55% das exportações da região. O dinamismo do novo bloco econômico, que pretende zerar a tarifa de importação de todos os produtos em cinco anos, impõe uma dura concorrência ao Mercosul, ainda minado, mesmo 20 anos após sua fundação, por conflitos comerciais entre seus membros. - Enquanto a institucionalização do Mercosul é muito lenta, outros países fazem seus blocos com uma rapidez fantástica. A Aliança do Pacífico já tem um volume de comércio equivalente às exportações do Brasil, o que não é algo desprezível - diz o economista Evaldo Alves, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Mesmo assim, alguns especialistas acreditam que o Paraguai não iria trocar o Mercosul pela Aliança do Pacífico. A estrutura econômica do país, segundo eles, está muito mais vinculada ao Brasil e à Argentina do que a qualquer outro país latino-americano. - Muito difícil isso acontecer. Pode ser que seja membro observador da Aliança do Pacífico, mas deixar de ser parte do Mercosul é dar um tiro no próprio pé - opina Ramalho. Imagem desgastada Para alguns analistas, o conflito entre Paraguai e Venezuela mostra as diferenças quanto aos projetos políticos e econômicos de cada país-membro do Mercosul e pode, ao mesmo tempo, colocar em xeque sua credibilidade externa como união aduaneira e possível parceiro de outros blocos, como a União Europeia. - O conflito entre Venezuela e Paraguai somente torna mais evidente as falências institucionais tanto a nível interno como regional do bloco - afirma Ana Soliz Landivar, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), em Hamburgo. "A credibilidade do Mercosul não está em risco com este caso, ele só mostra um problema mais profundo do bloco: a falta de consistência institucional, já que nunca chegou a ser um mercado comum nem sequer uma zona de livre comércio." Mesmo com problemas dentro do Mercosul, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, diz que o processo de negociação de um acordo comercial com a União Europeia está avançado e que, com vontade política, poderá ser concluído em um ano ou pouco mais. - Dificilmente essa expectativa será confirmada - afirma Mallmann, que vai além: "O acordo entre os dois blocos não se concretizará. O Mercosul não se viabilizou como um interlocutor coletivo de fato, não possui coesão interna, o que o torna um 'bloco frouxo', e não possui uma liderança legítima para levar adiante negociações externas. Já a União Europeia passa por uma profunda crise, o que retira suporte político para negociações externas." Segundo fontes diplomáticas, a presidente Dilma Rousseff aproveitará o evento em Assunção para tentar convencer o Paraguai a voltar imediatamente ao Mercosul. A expectativa brasileira é que, uma vez que esteja na presidência, Cartes deixe de lado a retórica agressiva adotada por seu partido e seu antecessor e renegocie o retorno ao bloco.
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