Rio de Janeiro, 24 de Maio de 2026

Para socióloga, aborto deve ser pensado junto com a maternidade

Domingo, 29 de Maio de 2005 às 10:45, por: CdB

Pensar no aborto sem pensar na maternidade é tarefa impossível para a socióloga e coordenadora da organização não-governamental Católicas pelo Direito de Decidir, Maria José Rosado Nunes. Na palestra Pensando eticamente a maternidade e o aborto, a pesquisadora afirmou que a decisão pela maternidade deve ser refletida, racionalizada, e não apenas a decisão de realizar um aborto. O debate foi promovido em Brasília pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.

- Sempre se pensa em aborto relacionado ao desrespeito à vida e na maternidade como respeito, mas quando uma mulher diz: 'eu não quero, eu não sou capaz, ou neste momento eu não quero fazer uma nova pessoa', ela está dizendo que ela tem um profundo respeito pela vida humana. Então, o aborto é na verdade a expressão do respeito que as mulheres têm pela vida - disse a pesquisadora.

Ela esclarece que, embora muitos pensem que no catolicismo há um único pensamento em relação ao aborto, e que esse pensamento é o da condenação, na verdade, historicamente, a igreja católica sempre reuniu posições divergentes sobre o tema.

- Só no final do Século 19 o papa definiu que todo aborto era pecaminoso, mesmo assim continuou-se a discussão - lembrou a socióloga.

Segundo ela, há dois elementos da tradição católica que são importantes na hora de tomar decisões. O primeiro é o chamado recurso à própria consciência. Maria José disse que a doutrina e a tradição devem ser os últimos recursos para que as mulheres decidam se devem fazer um aborto.

- O último recurso para uma decisão não é a doutrina, não é a tradição, não são as normas, não é a palavra de um bispo, nem mesmo de um papa, é a própria consciência. E, portanto, uma mulher tem todo direito de, como católica e seguindo a sua própria religião, num momento de decisão difícil, definir-se pela interrupção da gravidez - defendeu.

O segundo elemento da tradição católica na hora de tomar decisões importantes é o sensus fidelium, ou seja, o sentimento dos fiéis.

- Quando uma grande parte dos fiéis pensa de uma determinada maneira, expressada, ou verbalmente, ou pela sua prática, a igreja deve assumir isso como a vontade de Deus, isso é da tradição da igreja - explicou Maria José.

Para a socióloga, a criminalização do aborto é imoral, injusta e ineficaz. Imoral, porque transforma em criminosas mulheres que têm capacidade de tomar decisões morais, injusta, porque acaba atingindo as mulheres mais pobres, e ineficaz, porque não diminui o número de abortos no país, e acaba sendo a causa da morte de milhares de pessoas.

- Não há razão para se manter o aborto como um crime - concluiu.

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