Mais uma desgraça atingiu o Irã ontem. Um trem que transportava gasolina e material químico industrial descarrilou e pegou fogo no nordeste do Irã, a 20 km da cidade de Neyshabur, 650 km a leste de Teerã. A explosão deixou mais de 300 mortos, segundo os ultimos dados, alem de 400 feridos e cinco povoados "danificados". A causa foi um abalo sismico.
Em dezembro, no dia 26, a cidade histórica de Bam foi atingida por um terremoto que matou cerca de 40 mil pessoas. "Eu fui uma boa islâmica, rezei para Allah todos os dias. Não sei a razão pela qual tudo isso me aconteceu." Alma Sepehr, iraniana que sobreviveu ao terremoto que atingiu o sudoeste do país, lamentando-se junto à vala em que ela acredita terem sido enterrados 21 parentes seus, entre eles o marido, uma filha e vários irmãos. Como desgraça pouca é bobagem, em 10 de fevereiro caiu um avião da companhia aérea iraniana matando 43 pessoas.
Para piorar a situação, duas questões políticas estão fervendo na cabeça do povo persa. O período pré-eleitoral está muito mais conturbado do que se esperava. O Irã sofre sua pior crise política desde a Revolução Islâmica, há 25 anos. O Conselho dos Guardiões vetou mais de mil candidaturas dos reformistas. No último dia 1º, 125 dos 290 membros do Parlamento renunciaram em
protesto ao veto dos Guardioes. A Frente de Participacao Islaminca no Irã (FPII), principal partido de oposição vai boicotar as eleições. A questão é delicada e o principal articulador do boicote é o líder do partido, Mohammad Reza Khatami, irmão do presidente reformista, Mohammad Khatami, que está sendo atacado por não ter uma posição mais firme diante da crise com os conservadores. As eleições estão marcada para depois de amanhã.
Mas a difícil fase pela qual o Irã atravessa não termina aí, além dos problemas domésticos, ainda sobrou para os vizinhos de Saddam Hussein carregar a cruz dos EUA, que acabam de mirar no programa nuclear iraniano. Foram encontrados desenhos de máquinas e uma centrífuga que poderiam ser usados para a fabricação de bombas atômicas. O material não estava descrito no relatório entregue em outubro último para a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). O assunto começou a ser investigado desde que a Líbia, em dezembro, resolveu abrir seu território para inspeções.
A AIEA acabou encontrando semelhanças entre o programa nuclear libiano para fins militares e o material encontrado. No mês passado, o "pai" da bomba atômica
do Paquistão, Abdul Qadeer Khan confessou ter passado tecnologia nuclear
para o Irã.
Parece que os iranianos estão passando por um período realmente difícil. As
problemas veêm em cardumes. Os estragos são enormes. É como se, por osmose, tivessem adquirido um pouco da desgraça que abala os seus vizinhos
iraquianos.
Denise Martins é jornalista, especializada em assuntos do Oriente Médio.