Diretor técnico aponta necessidade de acelerar aumento de renda diante de oportunidade histórica
Por: Leticia Cruz, Rede Brasil Atual
Publicado em 22/08/2011, 18:08
Última atualização às 18:08
TweetSão Paulo - O diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Clemente Ganz Lúcio, acredita que há condições para os trabalhadores em campanha salarial no segundo semestre reivindicarem aumento acima da inflação. A afirmação foi dada nesta segunda-feira (22) durante palestra no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, sobre a crise e os efeitos no Brasil, além das negociações salariais das categorias no segundo semestre.
Comparando a realidade brasileira atual com o que ocorria no fim dos anos 1990, quando o país se voltava a um crescimento exclusivamente ancorado no mercado externo, Clemente diz que é possível às categorias profissionais organizadas buscar, nas negociações com os setores patronais, bem mais do que o empate com a inflação. "Se estivéssemos até o início dos anos 2000, diria que na negociação salarial estaríamos na série C do campeonato, com a perspectiva de empatar em alguns jogos", comparou o diretor. "Mantidos os padrões dos anos 1990, esta crise (mundial) deixaria muitos desempregados", completou.
Os desafios, segundo ele, se concentram em três debates: o crescimento dos salários em harmonia com a produção (sem que o trabalhador tenha de aumentar o volume de suas funções para receber mais); ampliar a capacidade de os estados proverem políticas públicas diversas em equilíbrio macroeconômico; e criar mais empregos e mais salários como base de sustentação do mercado interno. "É uma disputa que os sindicatos têm de travar e negociar", disse.
Passados 11 anos, Clemente considera que o país está em outro patamar, diante de uma oportunidade histórica de crescer visando o desenvolvimento e a distribuição das riquezas. "Não deveríamos deixar esta oportunidade passar. Se continuarmos crescendo 5% ou 4% ao ano poderemos dobrar nossa renda média em cerca de uma década", disse. Para o diretor técnico, ações sindicais voltadas ao salário mínimo são cruciais para traçar estratégias de crescimento da renda dos trabalhadores. Estima-se que o mínimo alcance R$ 1.300 até 2015, ainda muito aquém do considerado necessário pelo Dieese, de R$ 2.194.
Segundo Ganz Lúcio, a crise mundial tende a durar cerca de dez anos, mas o país pode tirar vantagens da situação. Ele pontua que, se o Brasil se baseasse no mercado externo e nas grandes importações, a crise nos afetaria como acontece com a China. "Somos majoritariamente exportadores primários (produtos agrícolas e minérios). Então, o que era uma mazela, se tornou uma fortaleza", afirmou. "As regras que criamos lá atrás protegeram o país."
Otimista, Clemente acredita que a crise coloca ao país o desafio de sustentar uma estratégia de crescimento, enquanto o mundo "patina". No atual cenário, em que se chegou ao estoque de empregos com carteira assinada de 44,068 milhões no último ano - segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) -, ele defende que a estabilidade do país é uma realidade. "Alguém imagina nos anos anteriores, em plena crise, a gente por aqui estar em negociação salarial?".