Senadores que integram o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar já acreditam ser praticamente inevitável a abertura de um processo de cassação contra o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), investigado por suposto envolvimento no esquema de escuta telefônica clandestina na Bahia executado com participação da Secretaria de Segurança Pública do Estado. A provável abertura do processo, no entanto, não significa que a perda de mandato do senador seria uma conseqüência inevitável. Essa avaliação ganhou força ontem, após os depoimentos dos jornalistas Luiz Cláudio da Cunha e Weiller Diniz, da IstoÉ . Durante a sessão de ontem, Luiz Cláudio revelou que recebeu do senador pefelista uma espécie de dossiê, com 170 páginas, que continha denúncias de corrupção envolvendo o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA). Segundo o jornalista, ACM lhe fez a seguinte afirmação: " Eu mandei grampear o Geddel " . " Eu ouviu isso do senador. Foi uma declaração espontânea dele. Fiquei perplexo e surpreso. Se for o caso, aqui, na Justiça ou na polícia, eu vou continuar testemunhando o que ouvi " , afirmou Luiz Cláudio. Weiller Diniz levou documentos ao Conselho para elucidar a conexão entre cartas de ACM a autoridades e pedidos de informação a órgãos federais, pedindo apuração de denúncias de corrupção, e conteúdo do dossiê, elaborado a partir do grampo. Coincidentemente, os requerimentos com pedido de informação eram feitos dias depois das conversas grampeadas. Após os depoimentos dos jornalistas, os senadores do Conselho decidiram, por unanimidade, convidar ACM para depor na próxima semana. O pefelista tem a prerrogativa de escolher data e local do depoimento, e também poderá apresentar sua defesa por escrito. O relator do caso, Geraldo Mesquita (PSB-AC), disse que já tem " informações substanciais " para concluir o relatório e que a fase de sindicância poderá ser encerrada após o depoimento de ACM. Além de revelar uma conversa sigilosa com o pefelista, o jornalista também levou uma fita gravada, com outro diálogo entre os dois, ocorrido dias depois. Essa conversa foi gravada depois que a IstoÉ tomou conhecimento de que a Polícia Federal investigava o grampo na Bahia. " A partir desse momento mudou todo o enfoque e passamos a tratar o caso de outra forma " , disse o jornalista. Ele disse que a gravação foi feita com intuito de proteção, caso o senador desmentisse a conversa após a publicação. A fita, que contém pouco mais de oito minutos, foi periciada pelo foneticista Ricardo Molina. No diálogo não há menção sobre a participação direta de ACM no grampo, mas fica evidente que ele tinha conhecimento das escutas. " Na fita não aparece de forma terminativa que ACM é o mandante dos grampos, mas é uma prova inconteste de que há um profundo envolvimento do senador e há indícios de mando " , concluiu o senador Aloizio Mercadante (PT-S). " A mim parece nítida a vinculação do senador com o grampo. Não tenho dúvida alguma " , avaliou o líder do PSDB, Arthur Virgílio. O senador César Borges (PFL-BA), ligado a ACM, disse que a palavra de um jornalista não pode tirar o mandato de um senador.
Para Conselho de Ética, processo de cassação de ACM é tido como certo
Sexta, 04 de Abril de 2003 às 07:03, por: CdB