Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

Para cobrar pedágio de motorista irritado, só com bom humor

Sexta, 01 de Julho de 2011 às 04:54, por: CdB
Para cobrar pedágio de motorista irritado, só com bom humor

Tarifas aumentam até 10% em São Paulo nesta sexta (1º). Arrecadadores vivem desafio de atender bem e rápido a motoristas nem sempre educados

Por: Suzana Vier, Rede Brasil Atual

Publicado em 01/07/2011, 10:42

Última atualização às 10:42

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A arrecadadora Tairini Figueiredo prefere atender os carros com problemas nas filas do pedágio (Foto: Jailton Garcia)

São Paulo - Sob sol forte ou chuva intensa, osarrecadadores de pedágio trabalham em cabines ou na pista dos pontos de cobrança para garantir apassagem rápida de veículos em 227 praças de pedágio no estado de São Paulo. O estado tem o maior número de pontos de cobrança do Brasil.

A função, relativamente nova, cresce com a expansão dos pedágios no país. A rotina de quem mantém as praças oscila entre o desafio de atender bem e rapidamente e o perigo de trabalhar entre veículos de todo tipo e tamanho. Somado ao convívio nem sempre harmonioso com o público.

O dia é de sol, mas o vento forte que atinge apraça de pedágio é tão intenso quanto o ruído de caminhões e carros que passamaos milhares pela praça de Barueri (a 20 quilômetros do centro da capital paulista).

A arrecadadora de pedágio Tairini Figueiredo é preparada para atenderem cabines e pista, mas gosta mesmo de atender os carros que param com problemas no asfalto, próximo às cabines, diz. Apesar do perigo, ela anda com desenvoltura e segurança entre asilhas de concreto que separam os módulos de cobrança. O local parece umlabirinto de asfalto, concreto, cancelas e veículos barulhentos. "Eu já me acostumei e mantenho atenção redobrada", explica.

Na pista, a trabalhadora atende osmotoristas que passaram na cabine errada ou esqueceram a carteira em casa,por exemplo. Sempre que a sirene soa é sinal de que houve um imprevisto e osarrecadadores de pista correm contra o tempo para liberar o motorista o maisrápido possível.

Gentileza gera gentileza

A disposição de Tairini emresolver problemas nem sempre é bem interpretada pelos motoristas. “O carro nãopode ficar parado”, ensina Tairini. Agressões verbais são comuns ejunto com acidentes são o principal problema dos trabalhadores ouvidos pelaRede Brasil Atual.

Neste dia 1º de julho, quando passam a valaer as novas tarifas nos pedágios do estado de São Paulo, com aumentos de até 10%, os atendentes já imaginam que vão ouvir no mínimoalgumas brincadeiras. “O assalto vai ser com arma ou sem arma”, ironizam motoristas ao passar pelo local de cobrança. “Eurespondo com tranqüilidade e discrição sem retrucar ou atacar”, explica a arrecadadora Aline Garcia, entrevistada na cabine de pedágio.“Somos preparados para lidar com todo tipo de situação”, argumenta.

Além do aumento do preço, a principal reclamação dosmotoristas é sobre a própria existência do pedágio. Mas a irritação decorrente de problemaspessoais dos usuários também sobra para os profissionais que trabalham nas praças.“Tem gente que nos coloca para cima e tem gente que nos coloca para baixo”,detalha Aline.

Ela já passou por humilhaçõesde usuários, mas diz ter uma receita infalível. “Eu quebro qualquer falta deeducação com educação e gentileza”, diz a trabalhadora, que cursa psicologia.

Para Tairini, o segredo dotrabalho é ser atenciosa com o usuário e se manter atenta com as vias que oferecem risco deatropelamento. "Ao encontrar uma pessoa irritada, meu desafio é que ela saia bem daqui, mais calmo pelo menos", indica.

Episódios de maus tratos por partede quem passa pelo pedágio e de acidentes são discutidos pelos menos três vezespor semana em reuniões com a chefia e quando necessário com psicólogos. “Euaprendi: o que acontece aqui, fica aqui”, aponta o arrecador Valdomiro Lopes Jr.

Tairini chegou aser alvo de ataque de um usuário, que jogou o carro em cima da trabalhadora e depoisfugiu. “Eu atendia uma pessoa na lateral da pista, quando percebi o carropassou e levou meu RT (rádio). Meu equipamento quebrou o retrovisor, se nãofosse isso eu teria sido levada pelo carro. Fiquei abalada de início, mas merecuperei”, lembra, ainda sem entender o motivo do quase atropelamento.

A rotina literalmente corrida e odesafio de lidar com o público são as principais motivações da arrecadadora.“Lidar com o público não é para qualquer um. Aqui é um microcosmo da sociedade.Lidar com pessoas diferentes e poder ser útil e gentil é o que me anima”,revela.

Dois metros por um

Aline trabalha numa cabine de doismetros por um, aproximadamente, durante sete horas diárias. Quando a reportagementrou na cabine, ela ainda atendia algumas pessoas que estavam na fila até queo fechamento do local começasse a valer.

Uma motorista parou no pedágio,pagou a tarifa e manteve-se ao celular todo o tempo. Segundo Aline, 90% dosusuários passam pelo local ao telefone. “A não ser quando há blitze da polícia”,lembra.

Ela também diz perceber que partedos motoristas passa desatento. Em geral, os motoristas não recordam se já pagaram ou qual valor foi entregue à atendente. “Outro dia um usuário me deu R$ 100. Eu perguntei se ele tinhanota de R$ 20. Aí ele percebeu a troca de notas”.

Aline tem de 12 segundos a 1minuto para atender cada carro. Em média ela diz que atende 390 veículos porhora, independentemente de ocorrências que possam atrapalhar o procedimento padrão.

Além de atender com gentileza e realizar a cobrança da tarifa de pedágio, muitas vezes os arrecadadores têm de acalmar motoristas irritados oucom problemas. Aline já atendeu uma usuária que foi avisada ao passar pelacabine que o filho fora acidentado. A profissional teve de garantir atendimentomédico para a passageira.

Lidar com artistas, famosos ecasos inusitados também fazem parte do dia a dia. “Temos de ter educação ediscrição a todo momento não importa se é famoso ou se vemos algo estranhoacontecer no carro”, diz.

O lado cruel do trabalho, segundoa futura psicóloga, são os acidentes, causados em geral por motoristasdesatentos. “Às vezes ocorrem pequenas batidas traseiras, um vai batendo nooutro. Às vezes o usuário passa bêbado”, descreve Aline.

Se o lado difícil são as pessoas,o lado bom do trabalho também são elas. “Um dia nunca é igual ao outro. Gostomuito de ver pessoas diferentes”, explicita.

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