Procurador da república critica projeto criado nos tempos da ditadura militar e diz que hidrelétrica significa perda da biodiversidade e de riqueza da região Amazônica
Por: Virginia Toledo, Rede Brasil Atual
Publicado em 16/09/2011, 10:52
Última atualização às 10:52
TweetCrianças à beira de um braço do Xingu que será encoberto pelas águas de Belo Monte (Foto: ©Lalo de Almeida/Folhapress)
São Paulo - "Belo Monte é um projeto da ditadura militar. Eles resgataram uma hidrelétrica de 30 anos atrás. Não é possível que com toda a evolução política e de planejamento energético ainda insistam num projeto ultrapassado como este". A consideração é de Felício Pontes Júnior, procurador da República no Pará, e autor de mais de doze ações contra a construção da hidrelétrica na região do Xingu
Em debate em São Paulo, feito após a exibição do documentário "À margem do Xingu: Vozes não consideradas", o procurador criticou a decisão de se construir a usina. Ele afirma que o setor elétrico no Brasil ainda é dirigido pelas mesmas pessoas que já estavam no comando há décadas.
Ele considera que o Brasil está indo na contramão de outros países que, com as mesmas características, investem na diversidade de energias alternativas. "O governo brasileiro ainda insiste que as hidrelétricas produzem energia limpa e barata. Não é uma coisa, nem outra. Não é limpa pelo estrago ambiental que provoca, e tampouco é barata, porque os custos socioambientais não são embutidos na planilha de orçamento", alerta o procurador.
Segundo a Norte Energia, consórcio responsável pelo empreendimento, o reservatório da usina ocupará uma área a ser totalmente encoberta de 503 quilômetros quadrados. Porém, de acordo com o procurador, os idealizadores não levam em consideração os impactos causados pelo desvio do rio, que atingirá cerca de 100 quilômetro do Xingu e de 5,3 mil quilômetros quadrados da floresta no espaço da operação. E, consequentemente, ações impactantes para os habitantes da região.
Felício conta que todas as pessoas que vivem na Grande Volta do Xingu e que não são consideradas atingidas "diretamente", não terão direito a indenizações, nem sequer explicações sobre os impactos da obra. Ele conclui que o "preço baixo" da hidrelétrica é obtido por esse cálculo, "ou pela falta dele."
"Quanto custa 100 quilômetro da Volta Grande do Xingu destruída? Quanto custa mais de duzentas espécies de peixe desaparecidas? Talvez o tribunal da história nos condene por isso, porque não deixaremos que as próximas gerações possam, ao menos, estudar as espécies vegetais e animais em razão desse projeto 'dito' de desenvolvimento", critica Felício.
A usina de Belo Monte vai gerar uma potência estimada em 11,2 mil megawatts, o que fará dela a terceira maior do mundo, atrás de Itaipu (divisa do Brasil com Paraguai) e Três Gargantas (China)
Em agosto, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, afirmou que Belo Monte será construída diferentemente do projeto inicial visando a redução dos impactos socioambientais. Tolmasquim disse que "com dor no coração" foi decidido pela diminuição da capacidade total de geração de energia, mesmo a custos considerados altos.
Também em agosto, o Ministério Público Federal (MPF) do Pará entrou com processo judicial pedindo a paralisação das obras da usina, alegando que os impactos causados violam direitos da natureza garantidos pela Constituição Federal. O tema, pela primeira vez, é discutido pelo Judiciário brasileiro, foi defendido por causar. A legitimidade da morte provocada de parte considerável da biodiversidade de uma região é discutida pela primeira vez pelo Judiciário.