Paquistão culpa inteligências do mundo por Bin Laden
Por Kamran Haider e Matt Spetalnick
ABBOTTABAD/WASHINGTON (Reuters) - O Paquistão culpou erros de inteligência em todo o mundo por sua falha em determinar a presença de Osama bin Laden perto de sua capital, enquanto Washington trabalhava para estabelecer se os seus aliados estavam abrigando o líder da Al Qaeda.
Os Estados Unidos reconheceram que Bin Laden estava desarmado quando foi morto a tiros no ataque de segunda-feira em Abbottabad, fato que gerou acusações de que Washington teria violado leis internacionais. As circunstâncias exatas de sua morte ainda não estão claras e ainda poderão gerar polêmica, especialmente no mundo muçulmano.
O Paquistão passou por um constrangimento nacional, disse um jornal de Islamabad, para explicar como o homem mais procurado do mundo foi capaz de viver durante anos na cidade militar de Abbottabad, ao norte da capital.
Islamabad nega veementemente que tenha abrigado Bin Laden.
"Há uma falha de inteligência do mundo inteiro, não apenas no Paquistão ", disse o primeiro-ministro Yusuf Raza Gilani a repórteres em Paris. "(Se houve)... lapsos do lado do Paquistão, significa que há lapsos em todo o mundo."
A revelação de que Bin Laden estava desarmado contradiz uma relato anterior dos EUA de que suas forças haviam participado de um tiroteio com os comandos a bordo de helicópteros.
A TV Al Arabiya foi mais longe, sugerindo que o arquiteto dos atentados de 9 de setembro teria sido capturado e depois baleado.
"Uma fonte de segurança do Paquistão afirma que a filha de Osama bin Laden disse que o líder da Al Qaeda não foi morto dentro de sua casa, mas foi preso e morto depois", disse a rede de televisão árabe.
O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, afirmou que a informação errada divulgada anteriormente devia-se à "névoa da guerra" - uma expressão sugerida por um jornalista.
A morte de Bin Laden e seu enterro imediato no mar têm gerado críticas no mundo muçulmano e acusações de que Washington teria agido contra a lei internacional.
"Os norte-americanos se comportaram como Bin Laden: com traição e vileza", disse Husayn al-Sawaf, 25, dramaturgo, no Cairo. "Deviam tê-lo julgado em um tribunal. Quanto ao seu enterro, não é islâmico. Ele deveria ter sido enterrado em solo."
Mas não houve nenhum sinal de protestos em massa ou reação violenta nas ruas do sul da Ásia ou no Oriente Médio, onde a militância islâmica parece ter sido obscurecida pelos movimentos pró-democracia que invadiram a região.
Bin Laden foi baleado na cabeça, E o presidente Barack Obama decidiu não divulgar a foto.
"É correto dizer que é uma fotografia horrenda", disse Carney. "Vou ser sincero. Há questões delicadas aqui em termos da adequação das liberação das fotografias."
Houve pouco questionamento da operação nos Estados Unidos, onde a morte de Bin Laden foi recebida com festas de rua. Uma pesquisa do New York Times/CBS News mostrou que a aprovação ao presidente Barack Obama saltou 11 pontos, para 57 por cento, após a operação, embora os norte-americanos temessem ataques de vingança por parte de militantes.
O Paquistão aprovou a morte de Bin Laden, mas o seu Ministério das Relações Exteriores expressou profunda preocupação com o ataque, que chamou de uma "ação unilateral não autorizada".
A CIA disse que o Paquistão não foi informado da ação, pois temiam que bin Laden seria avisado, ressaltando a profundidade da desconfiança entre os dois supostos aliados.
Helicópteros dos EUA voaram em áreas de "ponto cego" dos radares sobre o terreno montanhoso na fronteira afegã para entrar no espaço aéreo paquistanês sem serem detectados, na madrugada de segunda-feira.
O jornal paquistanês Dawn comparou a humilhação com a admissão em 2004 de que um dos maiores cientistas do país havia vendido segredos nucleares. "Desde que Abdul Qadeer Khan confessou a transferência de tecnologia nuclear ao Irã e à Líbia, o Paquistão não passa por tamanha vergonha", disse.
As ruas ao redor do complexo de Bin Laden em Abbottabad permaneceram fechadas na quarta-feira, com policiais e soldados permitindo somente a passagem de residentes.
"É um crime, mas que escolha sobra se não entrego o seu inimigo que está escondido na minha casa?", disse Hussain Khan, um funcionário público aposentado que mora nas proximidades, quando questionado sobre a aparente violação da soberania do Paquistão. "Obviamente você tem que vir pegá-lo sozinho."
Reuters