O cardeal polonês Karol Wojtyla interrompeu um monopólio de 455 anos da Itália nos papados quando venceu a eleição em 1978. Como o papa João Paulo II, ele pode também ter preparado o terreno para um pontífice italiano em 2005.
Em seus 26 anos de pontificado, João Paulo II viajou pelo mundo e desafiou os costumes como nenhum papa havia feito antes. Mas ele também supervisionou o trabalho para os quais os italianos seriam os mais qualificados: a administração da burocracia do Vaticano.
Se os 115 cardeais que votarão no próximo pontífice nesta semana decidirem que precisam de uma melhor administração no topo, a reação natural seria procurar um italiano para o trabalho.
Até mesmo um polonês, o cardeal de Varsóvia Jozef Glemp, deixou de lado as reservas habituais sobre especulações e disse que apoiaria um papa italiano.
- Sou muito favorável a isso porque eu sei que entre os cardeais italianos há alguns realmente muito capazes e que sabem o que estão fazendo - disse ele no mês passado, antes da morte de seu conterrâneo no dia 2 de abril.
- A reforma da Cúria está na pauta para o próximo papa e o argumento tradicional é de que um italiano pode fazer isso melhor - disse um membro europeu da Igreja que pediu anonimato.
O cardeal de Milão, Dionigi Tettamanzi, parece ser o homem melhor colocado para essa função, apesar de a mídia italiana ter mencionado ao menos meia dúzia de outros favoritos locais.
A Igreja Católica não é chamada de "Romana" por nada. Sua sede é uma cidade-Estado dentro de Roma, sua burocracia é fortemente italiana e seus trabalhos são conduzidos na língua local. O papa também é o bispo de Roma.
Além disso, as culturas italiana e católica estão tão interligadas que os líderes da Igreja local parecem ter adquirido a habilidade de negociação e acordo demonstrada por políticos proeminentes do país.
- Eles são as pessoas mais pragmáticas que Deus jamais permitiu passar à fase adulta. Eles nunca seriam rígidos como João Paulo II era - disse um jesuíta norte-americano que pediu para não ser identificado.
Por contraste, o cardeal alemão Joseph Ratzinger, o favorito inicial entre os candidatos a papa, insiste em regras claras. Ele disciplinou dissidentes em seus 23 anos como guardião da doutrina de João Paulo II.
O ex-diplomata do Vaticano John-Peter Pham diz que uma Cúria poderosa normalmente leva à estagnação, como visto nos anos finais antes da morte de Pio 12, em 1958, que deixou a Igreja pronta para as reformas do Concílio Vaticano II.
- Então, paradoxalmente, o longo papado de João Paulo II pode na verdade minar seu legado, se isso significar que os cardeais agora buscarão uma mudança - disse Pham.
Um argumento popular contra um novo papa italiano diz que o papado é aberto a todo o mundo - principalmente o Hemisfério Sul, onde vivem hoje 70 por cento dos católicos - após o pontífice polonês ter quebrado o monopólio italiano que vinha desde 1523.
Mas nem mesmo os católicos do mundo em desenvolvimento acreditam que este é o melhor caminho para a Igreja.
- Mesmo os cardeais do Terceiro Mundo aceitam um europeu no comando. A Igreja é européia - argumenta um padre asiático que trabalha na Cúria.
- Se você escolher um europeu, ele representa todos os europeus e também os americanos e australianos - disse.
- Veja todas as ordens religiosas, muitas delas têm maioria de membros do Terceiro Mundo, mas preferem ter um europeu no topo.
Papa italiano não está excluído se o conclave quiser mudança
Segunda, 18 de Abril de 2005 às 11:48, por: CdB