Um cardeal que substituiu o papa João Paulo II em uma cerimônia da Quinta-Feira Santa no Vaticano disse que o pontífice estava "abandonando-se serenamente" à vontade de Deus. O papa, de 84 anos, cujo estado de saúde continua delicado depois de ter se submetido a uma cirurgia na garganta, no mês passado, assistiu à cerimônia pela TV, em seus aposentos.
O cardeal Giovanni Batista Re, uma figura importante do Vaticano, comandou o primeiro dos rituais sagrados da Quinta-Feira Santa, dos quais o papa não poderá participar.
- Por meio de sua ausência, ele está mais presente do que nunca nesta missa - afirmou Re, durante a celebração, realizada na basílica de São Pedro.
- Queremos agradecê-lo pelo testemunho que ele continua a nos dar mesmo que por meio de seu exemplo de se abandonar serenamente à vontade de Deus, que ele relaciona ao mistério da cruz - disse o cardeal.
Quando enfrentou doenças no passado, e mesmo quando se viu perto da morte depois de ser baleado durante uma tentativa de assassinato em 1981, o papa sempre disse que sua vida estava nas mãos de Deus.
Mas as palavras de Re em seu sermão eram mais incisivas porque este ano será o primeiro do papado de João Paulo em que o líder dos católicos não participará das celebrações da Semana Santa, que culminam no Domingo de Páscoa. No começo da missa, Re leu uma mensagem enviada pelo papa.
- Estou unido idealmente com todos vocês reunidos na basílica do Vaticano. Por meio da televisão, em meus aposentos, meus amados, estou espiritualmente com vocês - disse o papa.
Durante a missa realizada nesta quinta-feira de manhã, e conhecida como Missa da Crisma, os cardeais abençoaram frascos de óleo que serão usados em rituais católicos.
À noite, um outro cardeal, Alfonso Lopez Trujillo, comandaria o ritual no qual os pés de 12 padres são lavados e que lembra o gesto de humildade de Cristo em relação aos apóstolos na noite anterior ao de sua morte.
No dia 24 de fevereiro, o papa submeteu-se a uma traqueostomia porque enfrentava graves problemas respiratórios. Em duas estadias, o pontífice ficou no total 28 dias no hospital Gemelli, em Roma, nos últimos dois meses. Desde que saiu do hospital, no dia 13 de março, João Paulo II, que também sofre do mal de Parkinson e de artrite, apareceu rapidamente por quatro vezes em público, mas não falou.
Membros do Vaticano disseram que a recuperação dele depois da cirurgia vem se dando de forma mais lenta que o esperado e que o estado de saúde dele continua inspirando cuidados.
A Santa Sé não quis fazer comentários sobre notícias veiculadas em meios de comunicação italianos de que os medicamentos tomados pelo papa estavam provocando efeitos colaterais indesejados, entre os quais dificuldades para respirar e se alimentar, dores de cabeça, vômitos e uma fraqueza generalizada.