Rio de Janeiro, 11 de Outubro de 2026

Paixão e espionagem em Beirute

No filme libanês, Hotel Beirute, no Festival de Locarno, as cenas são de paixão tórrida e recente, num hotel, mas as personagens não são tão simples para se construir uma história de amor – ela é libanesa, cantora de buate em fase de divórcio de um marido inconformado com a separação; ele é francês, advogado encarregado de acertas uns contratos com a Síria, mas suspeito de espião israelense.

Quinta, 11 de Agosto de 2011 às 16:34, por: CdB
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No filme libanês, Hotel Beirute, as cenas são de paixão tórrida e recente, num hotel, mas as personagens não são tão simples para se construir uma história de amor – ela é libanesa, cantora de buate em fase de divórcio de um marido inconformado com a separação; ele é francês, advogado encarregado de acertas uns contratos com a Síria, mas suspeito de espião israelense.

No pano de fundo, a Beirute rica, onde as tensões políticas, atentados, ameaças e execuçõe subsistem mesmo depois de terminados os sequestros. Famílias potentes, grupos, serviços secretos, suspeitas, ameaças são cotidiano, no dizer da própria cineasta Danielle Arbid, já premiada em Locarno e vivendo na França.

Nesse clima de insegurança, de medo constante e de risco de morte inesperada, o desejo e a paixão carnal se acentuam e o orgasmo entre dois seres tão antagônicos provocam faiscas e aquecem como fios elétricos de polos diversos até explodiremcomo bomba.

« Faz vinte anos que vivo na França mas quando vou a Beirute, não posso negar, conta Danielle Arbid, vivo uma espécie de paranóia e tenho medo, com o qual muitos se acostumam ou aceitam de maneira fatalista, a ponto de trocar constantemente de hotel ».

« Tenho medo, confessa ela, da guerra entre nós libaneses e da guerra com os outros,como Israel, medo de tudo nos leve aos caos e medo da violência, porque há muita violência num clima de falsa quietude. Um dia, durante as filmagens metade da cidade estava controlada, dadas as brigas entre xiitas e sunitas »

No filme, Danielle imprime essa sensação de paranóia, transportada para uma casal em começo de história de amor, na qual um não conhece a outra, se indagam e se suspeitam.

« Na Europa, explica a diretora do filme, sente-se menos esse clima, felizmente, depois de tantos anos sem guerras. A guerra é economica, luta-se para se achar um emprego e assegurar o futuro. No Líbano não existe esse sentimento de segurança, porque talvez na próxima semana tudo mude, por isso vive-se o amor e o sexo com mais intensidade. Um caso de amor se transforma rapidamente numa paixão. Por isso, a personagem vive e se veste como alguém que deseja aproveitar ao máximo o momento presente, caso tudo isso acabe amanhã »

Para obter a autorização para filmar nas ruas de Beirute, foi preciso, conta Danielle Arbid, enviar o cenário 15 vezes para as autoridades responsáveis pela censura, queriam que não se falasse em Israel, no atentado a Hariri e negavam haver espiões no Líbano. Exigiram também que a embaixada da França concordasse com as referências feitas a ela no filme, num documento assinado. E houve ameaças veladas, do tipo - « no seu lugar eu não faria esse filme ».

« É uma sociedade esquizofrênica, onde nestes últimos dias os que manifestaram contra o governo sírio foram atacados na rua e apunhalados. Existem sempre os prós e os contra, isso faz o charme do Líbano, porém ao mesmo tempo se torna cansativo", conclui ela.

Rui Martins, de Locarno, convidado pelo Festival.

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