O controvertido "A Paixão de Cristo," de Mel Gibson, está causando grande frisson entre os palestinos, curiosos em relação às queixas feitas por fontes judaicas que qualificam o filme de anti-semita.
Enquanto isso, as distribuidoras israelenses evitam trabalhar com o filme, que, segundo grupos judaicos, sataniza os judeus, indicando que eles teriam pressionado os romanos a crucificar Cristo.
Desde que foi lançado, em fevereiro, "A Paixão" já arrecadou mais de 315 milhões de dólares.
Apenas 1 por cento dos palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza são cristãos. Os outros 99 por cento são muçulmanos que reverenciam Jesus como profeta, mas não acreditam que ele foi crucificado.
Retratar um profeta num filme é proibido pela religião islâmica. Mas muitos palestinos, em função de seu conflito com Israel, dizem esperar que "Paixão de Cristo" suscite emoções de revolta contra os judeus em platéias cristãs de todo o mundo.
"As pessoas estão me telefonando de todo lugar na Cisjordânia -- de Belém, Hebron, Ramallah e Nablus -- para pedir mais cópias do filme," disse o proprietário de uma locadora de vídeo em Gaza que vende cópias pirateadas de filmes recém-lançados no cinema.
O dono da loja, que não quis ser identificado, contou que recebeu uma enxurrada de telefonemas depois de publicar um anúncio do filme num jornal palestino.
"A Paixão de Cristo" já vendeu mais cópias do que qualquer outro blockbuster de Hollywood no mercado de vídeos piratas de Gaza e da Cisjordânia, incluindo "Matrix Revolutions" e "O Último Samurai."
Em Israel, a agência local da distribuidora internacional do filme, Icon Entertainment, disse que rejeitou a oferta de exibir "A Paixão de Cristo," mas não quis especificar suas razões, dizendo apenas que o filme é "delicado." Fontes bem informadas em Israel dizem que as distribuidoras locais não estão interessadas no filme em função das alegações de anti-semitismo e o receio de que não iriam recuperar seu investimento, já que, no Estado judaico, filmes sobre Jesus atraem poucos espectadores.
Grupos judaicos e alguns clérigos católicos vêm expressando o temor de que o filme de Mel Gibson possa fomentar ataques contra judeus.
Gibson nega que o filme seja anti-semita. Em Gaza, alguns palestinos expostos a derramamento de sangue diário desde o início da Intifada (a revolta palestina), em setembro de 2000, se queixaram de que o retrato explícito da crucifixão feita no filme é violenta demais para seu gosto. "Parece mais um filme de terror do que um filme histórico," comentou um espectador, Mohammed Rezik Ahmed. Outros, porém, acharam que o filme não é sangrento o suficiente.
"Acreditamos que Jesus sofreu mais em vida, às mãos dos judeus, do que o que é mostrado no filme," opinou Hanna Anton.
O presidente palestino Yasser Arafat assistiu ao filme em sessão especial realizada em seu quartel-general na Cisjordânia, no início de março. Assessores dele disseram que Arafat achou o filme "comovente."
Mas nem todos os palestinos têm paixão por "A Paixão."
"Não foi nada especial," disse Ala, uma bibliotecária. "Apenas algo que vai aumentar o ódio que as pessoas sentem pelos judeus."