Rio de Janeiro, 06 de Setembro de 2026

Países ricos reagem a conflitos segundo seus interesses, diz MSF

Terça, 26 de Abril de 2005 às 15:36, por: CdB

Os governos dos países desenvolvidos dão uma "resposta desproporcional de ajuda" em função de seus interesses políticos, e não das necessidades sociais, disse na terça-feira a entidade Médicos Sem Fronteira (MSF), dando como exemplos o tsunami de dezembro na Ásia e a guerra do Iraque.

Essa é uma das conclusões que o diretor-geral da MSF na Espanha, Rafael Vilasanjuan, esboçou durante a apresentação do relatório "Alerta 2005! Informe sobre conflitos, direitos humanos e construção da paz", que sintetiza o estado do mundo ao longo de 2004, a partir da análise de vários indicadores de alerta preventivo e políticas de pacificação.

Ele destacou também que existe atualmente uma "excessiva simplificação das ameaças globais" e que "a população civil não combatente já não é tratada como vítima, mas como um objetivo na estratégia de guerra."

- Existe uma obstaculização sistemática da ajuda às vítimas de violência sexual, impunidade de combatentes em conflitos e deslocamento em massa de gente que se converteu em objetivo de guerra.

Daniel Luz, investigador da Universidade Autônoma de Barcelona e co-autor do relatório, enfatizou que a luta global contra o terrorismo e a introdução de leis em vários países prejudicou de forma geral o respeito aos direitos humanos, degradando também os direitos de asilo e refúgio.

De acordo com o estudo, em 59 países houve abusos contra o direito à vida, em 108 ocorrem torturas, e em 43 existe uma violação generalizada dos direitos humanos.

O relatório destaca também o aumento dos conflitos em 2004, ano que terminou com duas situações de crises a mais do que em 2003. Além disso, há 58 países onde a tensão aumentou e que estão à beira de um conflito armado.

O ano passado foi especialmente intenso e positivo a respeito da evolução dos processos de paz, já que em praticamente dois em cada três conflitos armados atuais existem negociações em andamento ou em fase exploratória. Dos 30 casos atuais, 17 correspondem a conflitos armados vigentes e 13 aos não resolvidos.

Outro problema revelado pelo relatório é a falta de prevenção de tais conflitos. Luz deu como exemplo os programas de desarmamento, desmobilização e reintegração (DDR), que considerou importantes, pois "quando fracassam podem gerar uma onda maior de violência que na origem".
Os programas DDR enfrentam dificuldades por causa da falta de verbas. O custo de cada um deles é de cerca de 100 milhões de dólares, o que equivale ao gasto militar mundial em uma hora.

O porta-voz da MSF na Espanha destacou a Aids, a fome e os deslocamentos populacionais como sendo as maiores ameaças mundiais, a serem combatidas "de uma maneira racional e suficiente, já que quando ocorrem duas ou três dessas situações é mortal".

Vilasanjuan enfatizou ainda a pouca resposta oferecida pelos países ricos ao problema da Aids.

- Trata-se de uma ameaça global para a qual não existe resposta, já que agora os governos estão concentrados na luta contra o terrorismo.

A comunidade internacional havia prometido tratar 3 milhões de soropositivos durante 2005, mas só conseguirá dar atendimento a 500 mil vítimas, o que supõe 10% dos infectados anualmente, segundo a MSF.

Vilasanjuan elogiou o Brasil como exemplo de luta contra a Aids, "pondo a vida em primeiro lugar" ao fabricar medicamentos genéricos contra a doença. Ele também criticou a atitude da Igreja Católica nesse campo.

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