Os países em desenvolvimento decidiram se unir para negociar em conjunto seus interesses na Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). A decisão foi anunciada por ministros de vários países no primeiro dia de reunião do G20 (grupo de países com interesse na abertura agrícola, que inclui o Brasil) e de outros grupos de países em desenvolvimento no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, neste sábado.
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que o novo grupo de países em desenvolvimento vai tentar usar a diversidade de posições e de interesses a seu favor e tirar uma posição comum que beneficie ao mesmo os países exportadores agrícolas que pregam o fim dos subsídios - como o Brasil - e outros países mais pobres, que reivindicam proteção especial para suas agriculturas de subsistência.
- Temos que discutir as nossas diferenças com franqueza. O nosso objetivo é não permtir que as nossas diferenças sejam usadas para enfraquecer nossa posição na Rodada de Doha -afirmou.
Amorim disse que um grupo de trabalho será criado imediatamente em Genebra para afinar e aprofundar as discussões sobre os temas de interesse comum e marcar uma nova reunião para meados de outubro ou início de novembro.
- O fracasso (da Rodada de Doha) é uma não hipótese - afirmou Amorim.
Questionado sobre qual garantia podia oferecer de que desta vez a negociação vai levar a algum lugar, ao contrário das anteriores, Amorim disse que não tinha garantia, mas que era preciso continuar tentando.
- O que tem agora de diferente é a disposição de todos de voltar ao jogo - afirmou.
Para ele, o que está em jogo nesta negociação não é apenas a abertura comercial, mas o futuro da ordem internacional.
- Se não conseguirmos um sistema que preserve a ordem internacional no comércio, como vamos conseguir um sistema que preserve o mundo do terrorismo? - disse ele.
Os países em desenvolvimento, na avaliação dele, estão na vanguarda em perceber isso, "mas os países desenvolvidos estão acompanhando".
Consultas
Um documento divulgado pelos países do G20 e por outros grupos de países em desenvolvimento pede que a Organização Mundial do Comércio intensifique as consultas entre os países-membros da organização "para permitir a pronta retomada das negociações" da Rodada de Doha. Eles pedem também a manutenção dos acordos já firmados durante as negociações, que conseguiram por exemplo o compromisso de reduzir os subsídios agrícolas até 2013.
O ministro do Comércio de Bangladesh, Hafiz Uddin Ahmad, coordenador do grupo de países com economias menos desenvolvidas do mundo, disse que a agricultura é o principal pilar da economia de vários desses países e que eles precisam garantir na OMC acesso sem quotas ao mercado dos países mais ricos.
- Estamos esperando a resposta do mundo desenvolvido à declaração de hoje - afirmou o ministro indiano Kamal Nath aos jornalistas.
O G20 e os coordenadores dos grupos de países em desenvolvimento têm reuniões em separado com o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson, com o ministro da Agricultura do Japão, Shoichi Nakagawa, e com a representante de Comércio dos Estados Unidos, Susan Schwab.
Retomada de negociações
No discurso de abertura da reunião, o ministro Celso Amorim reafirmou a importância de se retomar as negociações para a Rodada, paralisadas desde julho, com o impasse numa reunião em Genebra dos seis principais negociadores - Austrália, Brasil, União Européia, Índia, Japão e Estados Unidos.Países em desenvolvimento têm reuniões com EUA, UE e Japão no domingo.
Na época, G20 e União Européia responsabilizaram os Estados Unidos por se recusarem a reduzir de fato o volume de subsídios pagos aos produtores agrícolas. Neste sábado, Amorim disse que o apoio doméstico era um dos impasses na reunião de Genebra, mas não era o único.