Os países sul-americanos têm um plano de ação para levar adiante a Comunidade de Nações, mas este mecanismo de integração ainda precisa fazer muitos esforços e percorrer um longo caminho se quiser se consolidar como bloco regional.
Esta foi a conclusão da I Cúpula da Comunidade Sul-Americana, realizada na sexta-feira em Brasília, onde abundaram as declarações de voluntarismo político para avançar neste projeto e não faltaram vozes discordantes sobre a melhor fórmula política de fazê-lo.
A agenda prioritária e os objetivos da Comunidade são o diálogo político, a integração física e energética, as telecomunicações, a cooperação em preservação do meio ambiente, o financiamento, a promoção da coesão e a justiça social.
Os 12 países da América do Sul concordaram, no documento final, transformar a região em uma área de livre comércio, proposta que conta com o entusiasmo de uns, como o Chile, e a reserva de outros, como o Brasil.
O livre comércio foi tradicionalmente polêmico nas negociações regionais, e a proposta, embora aceita, não tem data para ser colocada em prática, apesar de o Chile ter tentado estabelecer 2010.
A Comunidade Sul-Americana apóia-se na idéia bastante generalizada de que o Mercosul e a Comunidade Andina de Nações (CAN) devem ser o pilar da união, mas a simples menção destes blocos suscita uma firme oposição da Venezuela, convencida de que precisam ser buscados novos mecanismos de integração para evitar modelos anteriores, que considera fracassos.
O presidente venezuelano, Hugo Chavez, participou da cúpula envolvido por uma conjuntura econômica propícia pela alta do preço do petróleo nos mercados internacionais.
Sua presença em Brasília, acompanhado de uma nutrida delegação, foi a chance real de anunciar um conjunto de acordos energéticos milionários entre a empresa estatal PDVSA (Petróleos de Venezuela) e a companhia petrolífera hispano-argentina Repsol-YPF, por um lado, e a brasileira Petrobras, por outro.
Um ponto-chave durante os debates foi como financiar projetos de infra-estrutura regional, que permitam melhorar as comunicações terrestres deficientes e insuficientes, as conexões aéreas custosas e complicadas, assim como a pesada burocracia para o tráfego de bens e pessoas.
O secretário da Confederação Andina de Fomento (CAF), Enrique García, disse que o financiamento é dificultado pelo baixo nível de economia na região, que é de aproximadamente 18% do Produto Interno Bruto, enquanto em países em desenvolvimento como a China está em torno de 30%.
Investimentos em infra-estruturas com sociedades mistas no setor público e privado, como as promovidas no Brasil, uma maior solidariedade regional, e a criação de um fundo de fomento foram algumas das idéias lançadas para resolver esta questão.
Mas, além do financiamento, os países precisam de uma maior coesão política e necessitam entrar em um acordo não tanto sobre o que buscam com este mecanismo, mas como ele vai funcionar e quais serão suas estruturas.
Chavez insistiu em uma proposta que formulou junto ao presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, para criar uma comissão que definiria um plano estratégico 2005-2010 para a integração.
O assunto ficou aberto à discussão, e a Comunidade dispõe, agora, de 90 dias para entrar em um acordo, por todos os meios possíveis de diálogo, e tentar estabelecer essa comissão.
A cúpula do Mercado Comum do Sul (Mercosul) que se realizará em dezembro no Uruguai será, para os presidentes, a ocasião de avaliar se o consenso está mais próximo.
Alguns governantes vêem este mecanismo em um contexto mais amplo e mencionaram a Comunidade Sul-Americana como a semente para uma união maior.
Assim, o paraguaio Nicanor Duarte advertiu que "uma nova ordem mundial não será possível sem uma América Latina unida" que tenha "uma voz potente e única".