Rio de Janeiro, 01 de Janeiro de 2026

Países árabes rompem relações com Qatar e desestabilizam Golfo Pérsico

O tráfego aéreo internacional foi o primeiro a ser atingido pelas sanções impostas ao Quatar, um dos mais influente vizinhos entre os países árabes no Golfo Pérsico

Segunda, 05 de Junho de 2017 às 10:35, por: CdB

O tráfego aéreo internacional foi o primeiro a ser atingido pelas sanções impostas ao Quatar, um dos mais influente vizinhos entre os países árabes no Golfo Pérsico. O Qatar dispõe de um dos principais aeroportos e pontos de escala entre a Ásia e o Ocidente.

 

Por Redação, com agências internacionais - de Doha

 

Arábia Saudita, Bahrein, Egito, Emirados Árabes Unidos e Iêmen anunciaram, nesta segunda-feira, a suspensão das relações diplomáticas, a proibição de voos e a interrupção do tráfego marítimo com o Qatar. As sanções foram impostas, de forma conjunta, após acusação formal de que o país apoia grupos extremistas e atos de terrorismo, em escala global. O emirado, no entanto, defende-se das acusações e classifica a decisão dos cinco mais influentes países árabes como uma "violação da soberania", segundo noticiou a agência norte-americana de notícias Associated Press (AP).

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O emir do Qatar, Tamim bin Hamad al-Thani, foi acusado de fazer declarações favoráveis ao Irã, o que revoltou os países árabes, vizinhos no Golfo Pérsico

O tráfego aéreo internacional foi o primeiro a ser atingido pelas sanções impostas ao pequeno, mas influente vizinho no Oriente Médio. O Qatar dispõe de um dos principais aeroportos e pontos de escala entre a Ásia e o Ocidente. Os países que suspenderam esta segunda-feira relações com o emirado anunciaram também o fechamento do espaço aéreo à Qatar Airways. Companhias dos Emirados Árabes Unidos como a sofisticada Emirates Airlines e a Etihad Airways já informaram que estão suspensos todos os voos para o Qatar.

Ataque de hackers

A decisão sem precedentes é vista como um risco à estabilidade dos países do Golfo. Após decretado o boicote liderado pelos sauditas, ainda durante a madrugada, o Iêmen aderiu às sanções, noticiou a rede britânica de TV BBC. O Iêmen, devastado por uma guerra civil, expulsou as tropas do Qatar que integravam a coligação liderada pela Arábia Saudita.

As forças combatem dissidentes apoiados pelo Irã. Um dos dois governos líbios - o de Tobruk, no leste do país, também havia aderido às medidas contra o Qatar.

Há algumas horas, o canal de TV saudita al-Arabiya também anunciou que as Maldivas, país de maioria muçulmana com laços diplomáticos, econômicos e culturais com o Golfo, acabara de romper relações com o Qatar.

Na capital Riade, o governo saudita afirmou, pela agência de notícias saudita, que a decisão foi tomada para "proteger a segurança nacional dos perigos do terrorismo e do extremismo". O mesmo motivo é apontado pelo Egito, segundo a Al-Jazira. O Bahrein justifica o corte de relações acusando o Qatar de “minar a segurança e estabilidade” do país e de “interferir em seus assuntos internos”.

Declarações bombásticas

Numa decisão de Abu Dhabi, os diplomatas do Qatar têm 48 horas para sair dos Emirados Árabes Unidos. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Qatar já reagiu a esta decisão, considerando-a “injustificada”.

A crise diplomática teve origem, segundo pronunciamento oficial de Doha, em supostos comentários do emir do Qatar, Tamim bin Hamad al-Thani. A chancelaria do país afirma que as declarações foram publicadas “por hackers no site da agência de notícias estatal”.

O emir teria reconhecido que o maior inimigo dos sunitas, o Irã, seria um “poder islâmico”. Nas alegadas afirmações do dirigente do Qatar, ele teria dito que os iranianos e os sauditas disputam a liderança política e econômica da região, travando indiretamente um conflito militar através do apoio a facções rivais na Síria, no Iémen e no Iraque.

"Não existem razões para a hostilidade árabe face ao Irã", disse o emir do Qatar. Ele teria, ainda, defendido as relações entre Doha e Israel. E feito elogios às forças do Hezbollah, movimento xiita pró-iraniano.

Quatar no Oriente

O Qatar desmente a veracidade das informações publicadas. Após o alegado ataque de hackers, ocorrido há duas semanas, os países que agora suspendem relações com o Qatar bloquearam o acesso online aos meios de comunicação do emirado. Incluindo a rede internacional de TV Al-Jazira.

Na quarta-feira, Doha garantiu que os responsáveis pelo ataque cibernético seriam levados à Justiça. Entretanto, segundo a Al-Jazira, os meios de comunicação dos Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita continuam a difundir os supostos comentários do emir qatari.

O secretário de Estado do governo de Donald Trump, o empresário Rex Tillerson, espera que a crise diplomática no Médio Oriente "não afete a luta contra o terrorismo", disse. Em Sydney, na Austrália, o chefe da diplomacia norte-americana voltou a abordar a crise. Sublinhou que encoraja todas as partes “a sentarem-se à mesa e ultrapassarem as diferenças”. Nos mercados, a cotação do barril de crude seguia em ligeira alta, nesta manhã.

O Qatar, um país pequeno em termos de área, com cerca de 2,7 milhões de habitantes, é o Estado mais rico do mundo per capita. As reduzidas dimensões do território não impediram o emirado de conquistar, ao longo dos últimos anos, uma enorme influência econômica e diplomática no cenário mundial. O país sediará a Copa do Mundo de Futebol de 2022, apesar das denúncias de trabalho escravo. Idem a despeito das acusações de corrupção na Fifa.

Base militar

A política cosmopolita de Doha, recentemente, estabeleceu o direito de voto às mulheres e fortaleceu laços, principalmente, com os EUA. O país detém a maior base militar norte-americana do Oriente Médio. Localizada a cerca de 30 quilómetros de Doha, a base aérea norte-americana de Al Udeid recebe, atualmente, cerca de 11 mil militares norte-americanos. O aeroporto tem uma das maiores e mais longas pistas de aterrissagem. Com hangares capazes de estacionar até 120 aeronaves.

A base foi utilizada, recentemente, para ataques da coligação internacional contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Também serviu como ponta de lança das tropas dos EUA no Afeganistão após os ataques do 11 de Setembro. Na época, acolhendo aviões de reconhecimento e de reabastecimento. 

Um estudo apresentado em 2014 ao Congresso norte-americano, citado pela rede norte-americana de TV CNN, concluiu que o Qatar investiu mais de US$ 1 bilhão durante os anos 90 para a construção da base aérea. No espaço operam, hoje, as forças aéreas dos Estados Unidos (USAF), do Reino Unido (RAF) e do próprio Qatar.

Kaddafi

A base aérea concentra, ainda, uma unidade do Comando Central de Forças dos Estados Unidos. Outra do Centro Combinado de Operações Aéreas e Espaciais (CAOC, na sigla em inglês). Este último responsável pela atuação dos EUA no Afeganistão, Síria, Iraque e 18 outras nações da região. A CNN identifica o CAOC como “o núcleo” das campanhas naquela região do globo.  

A mudança para este centro, desde 1997 hospedado numa base aérea saudita, foi completada em 2003. Após um investimento de US$ 60 milhões. É, ainda, de onde parte a unidade expedicionária 37 da Força Aérea norte-americana.

Estas tropas entraram em ação durante a primeira Guerra do Golfo, nos anos 90. Partiram de lá para a invasão do Afeganistão, em 2001. E na guerra no Iraque, entre 2003 e 2011. Funcionou, ainda, na operação de 2011, em território líbio, que terminou na morte do líder Muamar Kaddafi.

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