Por Oscar Berro - Assim como na música de Chico Buarque, as manifestações populares pelo país afora mostram que para o povo brasileiro essa última “desatenção” do aumento da passagem dos ônibus foi a gota d'água que fez transbordar o pote de desilusões
Milhares de cariocas foram às ruas protestar na tarde desta quinta-feira
“Meu coração é um pote até aqui de mágoas e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água”. Assim como na música de Chico Buarque, as manifestações populares pelo país afora mostram que para o povo brasileiro essa última “desatenção” do aumento da passagem dos ônibus foi a gota d'água que fez transbordar o pote de desilusões, de revolta, de indignação contra todos os “sapos” engolidos ao longo do tempo. Nesse grande pacote estão o histórico descaso com as reais necessidades do povo, o quase deboche presente na corrupção desenfreada, as obras superfaturadas na cara de pau, os personagens que se perpetuam como ratos cevados sempre imunes aos venenos, rindo dos gatos impotentes para caçá-los, as tentativas de neutralizar qualquer instrumento de punição, como a PEC 37, amordaçando o Ministério Público.
Mas pelo que tenho percebido “a ficha ainda não caiu”. Em todos os pronunciamentos a “culpa” é sempre do próximo. Deputados e Vereadores, dependendo do partido, acusam governadores e prefeitos da oposição, na tentativa de se descolarem como alvo dos protestos e botarem a culpa nos adversários. Os prefeitos e governadores, por sua vez, dizem apoiar movimentos democráticos onde os jovens se manifestam, só faltando assoviar para disfarçarem que isso “não é com eles”. Ou seja, por incrível que pareça, todos ainda acreditam poder tirar alguma vantagem disso.
Mas a paciência do povo com políticos e com partidos políticos que nada representam chegou ao fim.
É necessária uma verdadeira faxina, varrendo a incompetência, o despreparo acadêmico e moral. E aí é a vez do povo fazer seu mea culpa, repensando seus critérios na hora de votar. É chegada a hora de parar de virar o nariz para a política, como se ela fosse “uma coisa menor”. Enquanto votarmos “no conhecido”, “no cara que vai conseguir uma boquinha”, enquanto aceitarmos que a política seja ambicionada por aqueles dispostos “ a se dar bem”, continuaremos a juntar multidões nas ruas, reclamando das mesmas coisas, ouvindo as mesmas respostas gastas, debochadas, daqueles de sempre. Ou mudamos de vez ou as novas passeatas já nascerão mortas, desmoralizadas.
Oscar Berroé sanitarista da Fundação Oswaldo Cruz.
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