Rio de Janeiro, 13 de Setembro de 2026

Os riscos do jogo

Por Mauro Santayana - Na disputa pela Presidência da Câmara, há quem aconselhe o governo a não combater frontalmente a candidatura avulsa do petista Virgílio Guimarães. Ela, contando com grande parte dos votos do "baixo clero", evitaria que eles se somassem todos a uma eventual candidatura da oposição. (Leia Mais)

Sábado, 08 de Janeiro de 2005 às 10:11, por: CdB

O presidente Lula está diante de um problema político muito maior do que parece, no caso da presidência da Câmara dos Deputados. Conduzidos, nos meses anteriores, pela pretensão do Sr. João Paulo Cunha à reeleição, os articuladores políticos do Planalto não cuidaram de promover uma candidatura alternativa, talvez porque isso viesse a ferir a sensibilidade do atual ocupante do cargo. Quando a reeleição se viu inviabilizada, os candidatos surgiram, dentro do PT, antes que o Planalto começasse a atuar.

Ao decidir-se pela candidatura Greenhalgh, o governo pode ter escolhido um nome de grande peso intelectual e moral, mas não um parlamentar com bom tráfego nos corredores da Casa, nos quais é visto como elitista. Há ainda outro fator: mesmo dentro do PT há certo descontentamento pelo "rolo compressor" do núcleo dirigente, mais próximo do Planalto.

A escolha de Greenhalgh não surgiu da bancada: foi-lhe imposta de cima para baixo. Se o objetivo era o de amainar a disputa, com a proposta de um nome elevado, o resultado não foi o melhor. Mesmo entre os que votaram no parlamentar paulista há, agora, os que, refletindo sobre o ânimo da Câmara (e, sobretudo, do chamado "baixo clero") acham que a solução não é boa.
É de se acrescentar, ainda, que Virgílio Guimarães conseguiu unir toda a bancada mineira em torno de seu nome. E que recebeu, logo no início, o apoio do prefeito Fernando Pimentel, de Belo Horizonte, que conseguiu reeleger-se no primeiro turno, quando o partido não conseguiu vencer em São Paulo, nem em Porto Alegre. Animados por esse cacife político, os petistas mineiros desejavam, como é natural, obter mais espaço no poder nacional. Um dos caminhos seria a presidência da Câmara.

Se o governo desejava Greenhalgh como o sucessor de João Paulo, deveria ter trabalhado o seu nome com os outros candidatos e seus patrocinadores, mediante os acordos de compensação, normais e naturais no processo político. Não havendo tais negociações, fica agora muito mais difícil impor a sua candidatura. Por outro lado, e é o que se informa, Greenhalgh estaria dedicando seu tempo mais a conquistar os votos conservadores do que os da esquerda, talvez sob a convicção de que já conta com os seus companheiros de ideologia e ação contra a Ditadura. Sendo candidato à presidência de uma casa parlamentar, e necessitando votos de todos os partidos, é natural que trate de conquistar os adversários, mas é preciso toda a cautela nesse movimento.

Os jornais já noticiam que ele prometeu aos ruralistas apoio ao cultivo dos transgênicos, o que contraria, além daqueles que se ressentem do grande peso de São Paulo no poder, o núcleo ideológico mais autêntico do partido, aquele hoje representado no governo pela ministra Marina Silva - depois da saída dos "radicais" liderados pela senadora Heloísa Helena. Para esses petistas históricos é melhor um candidato que faça concessões corporativas aos parlamentares, do que um que as faça aos setores da direita, comprometendo ideologicamente o partido e a nação.

Sendo difícil voltar atrás, o governo terá que se esforçar, nas próximas horas, em duplo movimento: convencer Virgílio Guimarães a ensarilhar suas armas e convencer os líderes dos partidos aliados que Greenhalgh é o melhor candidato.

Há, no entanto, quem aconselhe o governo a não combater frontalmente a candidatura avulsa de Virgílio Guimarães. Ela, contando com grande parte dos votos do "baixo clero", evitaria que eles se somassem todos a uma eventual candidatura da oposição.

Mauro Santayana, jornalista, é colaborador do Jornal da Tarde e do Correio Braziliense. Foi secretário de redação do Última Hora (1959), correspondente do Jornal do Brasil na Tchecoslováquia (1968 a 1970) e na Alemanha (1970 a 1973) e diretor da sucursal da Folha de S. Paulo em Minas Gerais (1978 a 1982). Publicou, entre outros, "Mar Negro" (2002).

Tags:
Edições digital e impressa