Rio de Janeiro, 02 de Novembro de 2026

Os reflexos da derrota da CPMF

Numa sessão tensa, que varou a madrugada de 13 de dezembro, o governo Lula sofreu uma de suas piores derrotas políticas. O Senado rejeitou a proposta de prorrogação da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) até 2011. (Leia Mais)

Terça, 18 de Dezembro de 2007 às 08:10, por: CdB

Numa sessão tensa, que varou a madrugada de 13 de dezembro, o governo Lula sofreu uma de suas piores derrotas políticas. O Senado rejeitou a proposta de prorrogação da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) até 2011. A votação terminou com 45 votos favoráveis e 34 contra, mas para garantir a continuidade deste tributo eram necessários 49 votos. Com esta decisão, o governo deixará de arrecadar cerca de R$ 42 bilhões, o que põe em risco alguns programas sociais e inúmeras obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Passado o calor da refrega, agora vêem à tona as discussões sobre as formas de compensar a enorme perda – e aí mora o perigo para as camadas mais pobres da sociedade.

A oposição liberal-conservadora encarou esta batalha como decisiva – incomodada com os altos índices de popularidade do presidente, com os sinais de crescimento da economia e com o próprio desfecho do caso Renan Calheiros, ex-presidente do Senado. Daí toda a sua fúria e intransigência. De nada adiantou o recuo do governo, que numa última cartada apresentou a proposta de renovação da CPMF por apenas um ano e concordou com o repasse integral dos seus recursos para saúde. Também não valeram os apelos de alguns governadores tucanos, bem mais pragmáticos, preocupados com os repasses para os estados – com o fim da CPMF o governo José Serra deixará de contar com quase R$ 4 bilhões nos cofres de São Paulo.

As razões do desastre

O governo cometeu vários erros na condução da batalha – desde a ingênua tentativa de seduzir o PSDB, alijando as forças aliadas, até a rejeição inicial da proposta de alocar seus recursos na saúde. Da parte da oposição de direita, o que predominou foi a lógica eleitoreira, visando derrotar o governo Lula, sabotar os programas sociais e o PAC e agradar empresários e as camadas médias – partidários do “estado mínimo”. Ao final da votação, os líderes do PSDB e do Demo, eufóricos, ainda tentavam despistar. “Não votamos contra os pobres”, esbravejou o raivoso tucano Artur Virgilio, temendo o efeito bumerangue desta decisão impopular nas camadas mais sofridas do povo. “Quando morrer um velhinho num hospital do Nordeste, muitos vão se lembrar dos votos contrários à CPMF dos tucanos e dos demos”, fustiga um analista.

Além da mesquinhez eleitoreira, outra razão da rejeição foi a de classe. Tanto que a batalha forjou sólida unidade entre os partidos da direita e os barões da indústria (Fiesp) e dos bancos (Febraban), que fizeram campanha de rua contra a CPMF e acionaram parte da mídia venal. A elite burguesa enxerga no “imposto do cheque” um mecanismo incomodo de combate à sonegação e discorda da aplicação dos seus recursos. Do dinheiro arrecadado, 72% provêem das pessoas jurídicas, sobretudo das grandes empresas; o restante incide sobre os assalariados. Mesmo sendo uma tributação regressiva, que afeta o conjunto da sociedade, ela onerava mais as empresas e coibia a roubalheira. Muitas das ações recentes da Polícia Federal tiveram como estopim os dados da CPMF. O seu fim é motivo de festa para os sonegadores! Para o economista José Carlos de Assis, “mesmo considerando que a carga tributária do Brasil é injusta, a CPMF é o menos injusto dos tributos. Ela atinge, sobretudo, os ricos, por isso esse lobby dos ricos e de seus afluentes”.

Os efeitos perversos

Quanto à aplicação de seus recursos, a elite burguesa considera desperdício a “gastança com os pobres” e os tucanos e demos temem seus efeitos eleitorais. Um minucioso artigo de Marco Aurélio Weissheimer, na Carta Maior, mostra que “nos últimos quatro anos, a arrecadação da CPMF permitiu investimentos de R$ 91,6 bilhões na saúde, previdência social e no combate à pobreza. Na área da saúde, foram investidos R$ 46,6 bilhões entre 2003 e 2006. Já o atendimento hospitalar e ambulatorial no Sistema Único de Saúde (SUS) recebeu R$ 32 bilhões... O SUS é responsável, hoje, por 1 milhão de internações e por 116 milhões de atendimentos

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