Rio de Janeiro, 19 de Agosto de 2026

Os pouco assistidos Loucos por Cinema

Quarta, 08 de Outubro de 2003 às 20:44, por: CdB

 O Festival do Rio todo ano apresenta diversas mostras e retrospectivas. Algumas apostando no exotismo das fitas, outras na assinatura de um determinado cineasta. Algumas emplacam fazendo até sessões extras. Outras "encalham". Nesse ano, a mostra Musicais, que reúne somente clássicos do gênero, mostrou-se um verdadeiro sucesso. Sessões de "Rocky horror picture show" e "Pink Floyd - The Wall", tiveram seus ingressos esgotados (no caso do primeiro, teve sessão extra). É difícil prever que uma sessão de cinema em plena segunda feira, à meia noite, na Cinelândia, estaria cheia ("Hair"). Ou que numa quinta feira, no mesmo horário, pessoas estariam dispostas a se sentar no chão para ver um filme que nem é tão antigo ou raro ("The Wall"). Ao mesmo tempo em que esses musicais eram louvados por sessões regadas de nostalgia, outras mostras permaneceram no exotismo de seus criadores.

Intitulada "Loucos por cinema", essa mostra idealizada pelo ator e atual presidente da Rio Filme, José Wilker, conheceu o ostracismo. Buscava difundir filmes de pessoas que faziam cinema por amor: o camelô alagoano Simião Martiniano, o bombeiro Afonso Brazza, o ex-projecionista Martins Muniz e o bancário David Rangel. Pelo que julga a escalação do cinema no qual os oito filmes da mostra foram projetados ("Estação Botafogo 3, 66 lugares"), o fiasco de público era certo. O que parece uma piada, visto que dois cineastas, dos quatro que compõe a mostra, estiveram no Rio para apresentar seus filmes. 
 
1) David Rangel: a primeira sessão de "O senhor do universo" estava vazia. O que causou uma justificável irritação em Rangel. Mesmo assim o cineasta apresentou com muito bom humor seu filme para as 15 pessoas que ali se encontravam. Das pouco menos de 10 que sobraram ao final da sessão, obteve poucos elogios sobre a obra. Naquela mesma sexta feira o Jornal do Brasil publicara uma matéria sobre os "Loucos por cinema". Na matéria, o outro filme de Rangel na mostra, "Jerônimo, o herói  do sertão", tinha recebido duras críticas.
 
2) Martins Muniz: vindo de Goiânia, Muniz teve a sessão de seu "Diabo Velho - o Anhangüera" também destinada ao pequeno público. A primeira exibição de seu filme foi posterior ao filme de Rangel.
 
3) Simião Martiniano: esse seria o grande destaque da mostra. Revelado para o médio publico (grande seria um exagero) no curta metragem de Clara Angélica e Hilton Lacerda, "Simião Martiniano", camelô de cinema, esse exótico cineasta teve seus três filmes solenemente ignorados. Isso se pode afirmar se tomarmos por base a sessão do último sábado, às 19:30, de "O herói Trancado". Da dúzia de espectadores que começava a assistir ao longa, apenas quatro chegaram aos créditos finais.
 
4) Afonso Brazza: o bombeiro falecido no início do ano, vítima de um câncer, ficaria feliz em ver seu filme "Tortura selvagem" - a grade, único projetado em película na mostra, sendo aplaudido por cerca de 30 pessoas. Talvez o sucesso do filme seja devido a presença de José Mojica Marina (o Zé do Caixão) e de integrantes da banda de rock Raimundos. Porém, Brazza também tinha fãs.
 
Pelo que tudo indica, os "Loucos por cinema" e seus trabalhos continuarão desconhecidos do público. Terão a mesma classificação posterior negativa da mostra de melodramas mexicanos exibida no Festival do Rio de 2002. As raras fitas de Emilio Fernández e outros, projetadas no Instituto Moreira Sales, eram vistas por 6, 8 pessoas.  

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