Diante das incertezas e angústias da vida, a tendência de todo ser humano é agarrar-se à sua fé e às suas convicções mais profundas. Desde o início de 2004, intensificaram-se as críticas à política econômica brasileira e as dúvidas quanto à sua compatibilidade com o objetivo maior de assegurar a retomada do crescimento e a geração de empregos. A reação das autoridades econômicas foi promover uma certa radicalização retórica e reiterar as suas certezas fundamentais. O Banco Central, em especial, revelou-se mais rígido do que se esperava na condução da política monetária nos primeiros meses do ano.
A equipe econômica, prudentemente, não abre a boca. Falam o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central. As explicações do segundo oscilam entre o trivial e o absurdo, raiando não raro pelo cômico. Melhor seria incorporá-lo rapidamente ao grupo dos silentes. Mas vou deixar Meirelles de lado hoje. Vejamos um pouco o que diz o ministro Palocci.
Antes, uma ressalva: não se pode negar que o ministro da Fazenda tem os seus méritos e realizações. É habilidoso e, ao contrário de alguns dos seus auxiliares, dificilmente dá bom dia a cavalo. Não se deve subestimar a relevância desse atributo, pois distribuir cumprimentos a eqüinos pode afetar a imagem do país no exterior e provocar instabilidade nos mercados.
Mas não era isso que eu queria destacar. O importante é recordar que Palocci está administrando o pesado legado econômico-financeiro de um certo sociólogo, o mesmo que agora reaparece com críticas severas ao atual governo, recomendações ponderadas e ares de estadista. A verdade é que esse sociólogo deixou tudo pendurado por barbante.
Basta lembrar o seguinte: o governo FHC conseguiu a proeza - não há outra palavra - de promover simultaneamente o maior aumento da carga tributária de que se tem notícia no país, "o maior programa de privatizações do mundo" (segundo dizia o próprio governo) e um aumento gigantesco da dívida pública. Além disso, manteve a moeda brasileira escandalosamente sobrevalorizada por muitos anos, abriu a economia de forma imprudente e estimulou toda sorte de despesas no exterior. Resultado: ampliou de forma extraordinária o passivo externo do país.
Convenhamos, alcançar todos esses resultados não é fácil - exige certa sofisticação. Está muito além do que um mero e "despreparado" metalúrgico seria capaz de realizar.
Portanto, é inegavelmente pesada a carga que o ministro Palocci tem que carregar. Por isso mesmo, com o passar do tempo, Palocci dá sinais de que está perdendo um pouco do seu equilíbrio e espírito esportivo. Na semana passada, reagiu de forma violenta a críticas de um grupo de deputados do PT. Na semana anterior, esteve no Senado e assegurou que "a política econômica, em seus pilares fundamentais, não vai, não pode, não deve mudar".
Esse acesso de fundamentalismo do ministro da Fazenda é preocupante. Toda vez que autoridades econômicas adotam um tom fervoroso é porque algo não vai bem ou está prestes a desandar. A política econômica é sempre executada em ambiente de incertezas e dúvidas. Nunca convive bem com posturas dogmáticas e profissões de fé. Um pouco de cautela e um pouco de ceticismo não fariam mal ao nosso ministro.
No entanto, já que estamos no terreno religioso e das intuições místicas, faço aqui uma profecia: Palocci permanecerá no cargo até o último dia do governo Lula. Por quê? Ora, ora, profecia não se explica.
Mas abro uma exceção. Se a política econômica der resultados, digamos, razoáveis ou bons, não haverá motivos suficientes para correr o risco de trocar de ministro da Fazenda. Se houver dificuldades, instabilidade ou crise, o quadro se tornará perigoso, desestimulando a substituição de um ministro que se converteu em uma espécie de fiador do governo Lula.
Só nos resta esperar que as lições da experiência, doses maciças de on the job training, as pressões sociais e políticas e o efeito sempre salutar d