A fragilidade de Nadir Kfouri era apenas a da aparência física. Na realidade era uma fortaleza. Inarredável em suas convicções e princípios, foi com eles que enfrentou o aparato de repressão da ditadura que no início da noite de 22 de setembro de 1977, sob o comando do coronel do Exército e então secretário de Segurança Pública de São Paulo, Erasmo Dias, invadiu a PUC-SP. O pretexto para o ato truculento é que ali se reuniam estudantes de várias universidades, o que o regime militar considerou um congresso da UNE, à época ainda na clandestinide. Na violenta invasão - centenas de alunos foram detidos e vários ficaram feridos e queimados por bombas atiradas pela repressão - Nadir protagonizou um dos episódios mais reveladores de sua fibra. Ela deixou o coronel Erasmo, que tentou cumprimentá-la, com a mão suspensa no ar. Virou-lhe as costas e afirmou, alto e em bom som: “Nao dou a mao a assassinos”. Nadir morreu na noite de 3ª feira, aos 97 anos, em decorrência de uma pneumonia. Enérgica, bem humorada e suave no convívio Foi a primeira mulher no mundo reitora de uma universidade católica, a PUC-SP, eleita pelo voto direto de mais de sete mil alunos, funcionários e professores e reeleita para um 2º mandato. Para assumir a 1ª vez o cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns precisou fazer gestões junto ao papa Paulo VI, para contornar as arestas políticas e vencer a resistência a seu nome imposta pela ditadura. Enérgica e ao mesmo tempo bem humorada era uma suave figura no convívio diário. Nadir era formada pela Faculdade de Serviço Social (1ª turma) - incorporada à PUC-SP - com pós gradução nos Estados Unidos. Por algum tempo foi professora também na Espanha. No testamento ela deixou o apartamento em que morava, seu único patrimônio, para o filho da empregada que cuidou dela até os últimos dias. À família, à comunidade acadêmcia e aos alunos da universidade onde também estudei e que ela considerava como filhos, meus sentidos pêsames. Hoje nos sentimos todos um pouco órfãos.