O artigo de Eduardo Graeff publicado na Folha de São Paulo de 19 de maio, na página 3, "Nem tanto nem tão pouco" é a prova provada no mal estar que atualmente assola a tucanagem brasileira. Uma definição: quando emprego a palavra "tucanagem" é para diferencia-la de "tucanato", pois aquela vai além deste. É ela aquele sentimento incontido de que existe algo de errado na ordem das coisas que permitiu a uma trajetória vinda "dos de baixo" (a expressão é de Florestan Fernandes) suplantar no voto a trajetórias que se assentam nos sólidos salões da nata da élite brasileira.
O artigo conclui afirmando a necessidade de gestar uma "nova agenda" para as oposições. Ou seja, ele testemunha de assina embaixo que a guinada à direita da política econômica do governo Lula roubou-lhes a pauta e o programa. E nada mais lhes resta do que atacar o presidente, o perfil do presidente, a figura do presidente. São os novos lacerdas, sem os golpes de antanho, porque inverossímeis na política brasileira de hoje.
Carlos Lacerda foi um político especialista em destruir perfis e políticas. O que Lacerda construiu? É difícil lembrar. É mais fácil lembrar que ele destruiu o segundo governo de Vargas, o de Jânio e ajudou a destruir a ordem constitucional em 64.
A tucanagem de hoje sabe que para recuperar o Planalto em 2006 é necessário ir além dos casos Waldomiro, é necessário ir além de recuperar a prefeitura de São Paulo, de ganhar a de Belém ou outros feitos e esforços desse tipo. É necessário atingir e destruir a credibilidade do presidente Lula, à direita, à esquerda e ao centro. É necessário isolá-lo, deixá-lo falando sozinho. É isso o que pretendem os que se auto-intitulam os "formadores de opinião" da tucanagem.
A partir daí cria-se uma "barreira semântica" que cerca continuamente as menções ao presidente e na qual se martela e se vai martelar sempre, pois é o que resta a fazer, pelo menos de momento, em que esse lado das oposições se vê roubado em seu programa, e sem identidade. A tucanagem sempre acreditou ser o sol do nosso sistema; de repente viu-se reduzida à condição de satélite sem luz própria, sequer a de planeta com órbita autônoma. A tucanagem administrou o espólio da ditadura. Jogaram-se com tal afã em privatizar o privatizável que se esqueceram do resto. Agora querem candidatar-se a administrar o espólio do governo Lula; mas é necessário agora construir esse espólio, redigir-lhe o testamento, criar o morto-vivo, como Lacerda fez com Getúlio em 54. Só que lá o tiro saiu pela culatra (isso não é apenas uma metáfora). Agora vamos ver o que vai acontecer.
Para o presidente e suas ações se reservam sempre expressões amesquinhantes, diminuidoras, pejorativas, que induzam ao desprezo: isso é o que chamo de "barragem semântica" em que se martela continuamente. São expressões como "pirotecnia verbal", "aparelhismo", "exagero descabelado". Essa última é significativa: não basta o "exagero", que já é pejorativo. Não. Deve-se recorrer à hipérbole, a mesma de que se acusa o governo: o exagero precisa ser "descabelado". E tem mais: "xaropada", "blá-blá-blá", "praga", "grandiloqüência oca", "fiasco", "mal", "fragilidade política".
Se fizermos a garimpagem em outras áreas, vamos encontrar que o governo quase sempre "tenta", nunca faz. O governo "vende" interpretações. Padece sempre de "incapacidade gerencial". Falta-lhe "sofisticação intelectual", padece de uma "síndrome do auto-engano". Numa outra frente, compara-se Lula com Hugo Chávez e Fidel Castro, sempre pelo lado dos excessos verbais. Também se levanta o argumento do "autoritarismo", mas um autoritarismo diverso do da ditadura de antanho, embora apresentado como semelhante no tom: é um "autoritarismo defensivo", de quem se sente inseguro, menor, desacreditado.
O pior de tudo isso é o completo esvaziamento do debate político de atitudes e programas. Tudo gira em torno dos ataques pessoais, mesmo se restritos ao perfil político dos personagens.