Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Os múltiplos racismos da América

O enfrentamento, entre o jogador argentino Desábato e o brasileiro Grafite, expôs uma cicatriz de origem de nossas sociedades nacionais latino-americanas que não podemos nem devemos renegar, mas que devemos conhecer, reconhecer, para poder, talvez, superar. (Leia Mais)

Quinta, 21 de Abril de 2005 às 08:23, por: CdB

As recentes discussões sobre racismo em nossa região sul-americana puseram em pauta não mais apenas como ele se formou nas diferentes nações emergentes da derrocada dos impérios europeus, mas como se formou entre elas. O enfrentamento, entre o jogador argentino Desábato e o brasileiro Grafite, expôs essa cicatriz de origem que faz parte dos processos de formação das sociedades nacionais que não podemos nem devemos renegar, mas que devemos conhecer, reconhecer, para poder, talvez, superar.

Esses enfrentamentos raciais, que formariam as fronteiras começaram, no caso da região platina, no século XVIII. Curiosamente, não envolveram os índios, que não eram considerados nessa altura raça "inferior", só uma "gente condenada", anticristã, selvagem. Isso não melhorou o seu destino, que fique claro. Mas o motivo não era racial, era "civilizatório" e era "imperial". Não podia alegar o motivo "cristão", pois o cristianismo se dividiu: os superiores da ordem dos Jesuítas, a Companhia de Jesus, se colocaram, por interesses políticos europeus, do lado dos impérios, mas houve padres que generosamente lutaram ao lado dos guaranis, como o padre Balda, personagem do poema Uraguai, de Basílio da Gama, publicado em 1769.

Raízes raciais começaram a aparecer diante das disputas de fronteiras das nações novas que emergiam das contradições das sociedades coloniais. Os espanhóis, nas terras planas de Buenos Aires e dos campos orientais do Uruguai, exerceram uma política implacável de eliminação dos indígenas e limitadora da presença dos negros nas sociedades em formação. Os portugueses levavam sua política de utilização dirigida de todos os povos que dominavam. Formaram batalhões de guerreiros negros, escravos ou ex-escravos, para combater nas lutas de fronteira.
Tal fato foi registrado por poeta-soldado "castelhano", cujo nome não se preservou, diante das escaramuças constantes provocados sob a liderança luso-e-já-brasileira do caudilho Rafael Pinto Bandeira:

"Pinto Bandeyras llamado
Era en efecto este tal
Fidalgo de Portugal
Y era Coronel Graduado:
Lleva siempre a su lado
Segun voces diferentes
Horror de negros valientes
Que el temor no conocían,
Mas por Dios que no querían
Hacerse nunca presentes".

Eis aí: guerreiros bravos, respeitados, temidos, mas que de alguma forma, por algum motivo, não queriam mostrar-se, "hacerse nunca presentes". Erro de sentido? Cumprimento de olhares de condição e raça...

Nas terras da futura Argentina, sobretudo em Buenos Aires e seus arredores, houve uma sistemática política de extermínio, promovida pelos "unitários" vitoriosos, em relação a índios, gaúchos", mestiços e por fim a negros, e muitos destes começaram a fugir para o Uruguai e o Brasil. Nas terras do Uruguai a presença negra foi mais duradoura, e formou um bairro próprio em Montevidéu, o de Palermo. Até hoje o carnaval de Montevidéu aí começa, com os batuques fortes ressoando em tambores e tamborins. Um dos grandes heróis uruguaios, hoje pouco conhecido nestas plagas, foi o negro Aguiar, que acompanhou Garibaldi e Anita em sua volta à Itália, e lá morreu na resistência da República Romana, em 1849, contra o poder papal, as monarquias européias e a presença das tropas francesas de Napoleão III.

No Brasil houve uma complicação dos problemas com a Revolução Farroupilha, que de 1835 a 1845 proclamou uma Republica independente e formou corpos de cavalarianos conhecidos como os Lanceiros Libertos ou Lanceiros Negros, que durante os dez anos da guerra, como os de Pinto Bandeira, foram "o terror" dos inimigos. A paz de Ponche Verde (e disso tratarei em outro artigo sobre nossa tradição republicana) enviou boa parte dos remanescentes desses corpos para as lutas no Prata, onde se reforçou a "temida" presença dos negros.

A Guerra do Paraguai (1865 - 1870) encontrou um terreno propício para manifestações racistas. O Brasil, pego de surpresa, exceto pelo Rio Grande do Sul, onde a m

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