Dos controversos movimentos armados brasileiros, o levante paulista de 1932 é um dos mais. A memória me diz que em outro levante armado, o de 1964, que desembocou no regime ditatorial mais longo, repressivo e reacionário do Brasil, houve quem tentasse reivindicar que este realizara os ideais da “Revolução de 1932”. Havia semelhanças, ou
melhor, analogias:
1) Como S. Paulo foi um dos Estados onde houve forte mobilização das classes médias, da burguesia e dos militares contra o governo de um gaúcho, João Goulart, houve um sentimento de que a vitória de 64 era a vingança contra a derrota em 32.
2) Houve campanhas parecidas: em 32, diante da escassez de recursos, os revoltosos lançaram a campanha de “dar ouro” para S. Paulo, a fim de comprar armas, suprimentos e remédios. Em 64, os vencedores lançaram a campanha “dê ouro para o bem do Brasil”, mas confesso que não me lembro muito bem dos objetivos. Aliás, duvido que haja muita gente que possa ou mesmo queira lembrar.
3) A imprensa da época, que na quase totalidade apoiou o golpe, ajudou a criar esse clima de revanche paulista. Houve uma edição especial da revista Manchete que comemorava a “união” de S. Paulo, Rio e Minas contra o governo de Goulart.
Em S. Paulo, a comemoração do movimento lembra a que os gaúchos fazem com a Revolução Farroupilha. É a segunda comemoração oficial em importância depois da do 7 de setembro. Mas não tem os ares, por exemplo, da celebração que os mesmos gaúchos guardam (ainda que não tenha a pompa das outras) em torno da resistência de 1961, contra o golpe que desejava impedir a posse de Goulart depois da renúncia de Jânio, a famosa Rede da Legalidade, ainda que esta não tenha desembocado em conflito armado.
Na cidade de S. Paulo a comemoração de 1932 tem agitado seguidamente manifestações conservadoras, o que, sem dúvida, corresponde a um dos aspectos principais, senão o principal, daquela revolta, também chamada de “Constitucionalista”, porque reclamava o fim do governo provisório de Vargas, depois de 30, e o estabelecimento de nova Constituição Federal.
A revolta de 32, no Estado, foi planejada, realizada e açambarcada ideologicamente pela oligarquia cafeeira que se sentira (e com razão...) apeada do poder federal em 1930, depois do vitorioso movimento liderado por Vargas. Esta burguesia tinha sólidas razões de descontentamento:
1) Como já aludi, sentia que seu poder fora “roubado” pela deposição de Washington Luís e pelo movimento que impediu a posse de Júlio Prestes como presidente.
2) A burguesia se sentia descontente pela nomeação de um “forasteiro”, o coronel do exército João Alberto de Barros, como interventor no Estado.
3) Essa mesma burguesia ansiava por um espaço político (a Constituinte) onde pudesse repactuar seu predomínio no país, que se rompera antes de 30 com a indicação de Prestes, paulista, como candidato à sucessão de W. Luís, o que afastara os mineiros em direção aos gaúchos e seus seguidores.
4) Há um quarto motivo, nunca lembrado, para essa insatisfação. A burguesia paulista mostrava-se extremamente insatisfeita e sentia-se ameaçada pela criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, que entre 1930 e 1932 já dera passos decisivos para a criação de uma legislação trabalhista moderna no país, liderado por Lindolfo Collor, que trabalhou em conjunto com um grupo de assessores que se intitulavam “socialistas humanitários”, como Evaristo de Moraes, Joaquim Pimenta, Agripino Nazareth, Deodato Maia, Carlos Cavaco e Américo Palha (v. “Lindolfo Boeckel Collor [1890 – 1942] e as bases estratégicas do Estado getuliano”, por Ricardo Vélez Rodríguez, Coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas “Paulino Soares de Sousa”, da Universidade Federal de Juiz de Fora. www.defesa.ufjf.br/fts/LINDOLFOCOLLOR.pdf)
Apesar de açambarcada pela oligarquia, a insatisfação em S. Paulo tocou também outros setores da sociedade, como o movimento estudantil
Os marcos e as marcas de 32
Flávio Aguiar:> O levante paulista de 1932 é um dos movimentos armados brasileiros mais controversos. Apesar de açambarcado pela oligarquia, a insatisfação em S. Paulo tocou outros setores, como o movimento estudantil. Há quem diga, ainda, que 1964 realizava os ideais de 32. (Leia Mais)
Domingo, 08 de Julho de 2007 às 13:00, por: CdB