Os jogos olímpicos de 2016 entraram definitivamente na agenda do povo brasileiro. A decisão do comitê olímpico internacional foi efusivamente comemorada pela comitiva brasileira, pela torcida organizada e pela grande mídia empresarial, que dedicou espaço especial nos jornais, revistas, emissoras de rádio e TV. Gostemos ou não, teremos de conviver com esse assunto – a organização e realização das olimpíadas – pelos próximos sete anos. Pelo menos.
A escolha do Rio de Janeiro para sede dos jogos, pela primeira vez na América do Sul, em princípio é um fato auspicioso sob vários aspectos, desde o que pode representar de estímulo às políticas e práticas esportivas, o necessário investimento em obras diretas e indiretas, a avalanche turística, o desejado retorno financeiro e, com certeza, a projeção internacional do país, seu povo, sua cultura. Como diz a gíria, é o Brasil na fita, em especial nas telas do primeiro mundo.
Independente da posição e da torcida de cada um, muitas vezes radicalizadas (há quem considere os jogos a salvação do país e há quem considere os jogos a nova desgraça do país), o assunto normalmente desperta um sentimento contraditório, algo muito enraizado na índole e na vivência concreta do povo. Enfrentamos os dilemas típicos de uma esquizofrenia social que tem, de um lado, a necessidade de superação do complexo de inferioridade e, de outro, o conhecimento profundo da realidade ética, moral, política e cultural das elites brasileiras.
Pedi aos meus alunos do curso de Jornalismo da PUC-SP, jovens de 18 a 20 anos, a elaboração de artigo sobre o sentido econômico dos jogos no Brasil. A grande maioria criticou a realização do evento num país com graves problemas sociais (desemprego, desigualdade, miséria etc) e urbanos (faltam moradias e saneamento, serviços públicos precários etc). A minoria considerou a realização do evento válida para estimular a estrutura esportiva e o desenvolvimento do turismo no Rio de Janeiro.
O que chamou mais a atenção nesses textos dos estudantes é a total descrença de que os jogos olímpicos possam ser realizados sem esquemas de corrupção, desvio de recursos, favorecimento de grupos econômicos, violência policial, perseguição aos pobres e favelados, aumento da desigualdade e outras mazelas que marcam a realidade brasileira. Todos lembram as maracutaias e as farras patrocinadas com os recursos públicos como prova irrefutável da condução dos “grandes negócios” pelas elites brasileiras. No máximo, consideram que os jogos produzirão uma maquiagem temporária dos problemas brasileiros – e que tudo voltará ao “normal” após o grande evento.
Até mesmo quem considera positiva a escolha do Brasil para sediar os jogos, não acredita que os jogos possam ser organizados com honestidade e ao mesmo tempo proporcionar benefícios para o conjunto da população carioca. Quando questionados sobre a base real para tal desconfiança, já que o projeto das olimpíadas ainda é embrionário, as respostas caminham numa única direção: os benefícios dos jogos serão “puxados” para aqueles que controlam o poder, aqueles que já usufruem de situação privilegiada e aqueles que roubaram, roubam e tendem a roubar dos cofres públicos.
No fundo, a grande resistência da juventude não está nos jogos em si, mas nas bandalheiras que eles podem proporcionar. A melhor posição a ser adotada, a mais consciente, a mais comprometida com o Brasil, é aquela que encara as olimpíadas do Rio de Janeiro com muita crítica – inclusive para inibir a ação nefasta dos bandidos de sempre. Criticar e fiscalizar – quem sabe assim a gente consiga mudar alguma coisa.
Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor da PUC-SP.