Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Os Extremistas deram o tom em Paris

Por André Marinho - Ainda é precoce uma análise sobre o terrorismo político que a imprensa francesa – e por extensão, europeia e ocidental, sofreu em Paris, neste dia 7 de janeiro. Detalhes sobre as motivações, a escolha do alvo, os autores ainda se revelarão. Independente da investigação, o sentido político já foi dado, seja pelos terroristas, seja pela imprensa, seja pela própria população alvo francesa.

Quinta, 15 de Janeiro de 2015 às 07:00, por: CdB

Ainda é precoce uma análise sobre o terrorismo político que a imprensa francesa – e por extensão, europeia e ocidental, sofreu em Paris, neste dia 7 de janeiro. Detalhes sobre as motivações, a escolha do alvo, os autores ainda se revelarão. Independente da investigação, o sentido político já foi dado, seja pelos terroristas, seja pela imprensa, seja pela própria população alvo francesa.     Rep/Web   Trata-se de terrorismo político e não individual. É como se os assassinos estivessem a representar um Estado. Ainda que possivelmente nenhum Estado formal lhes tenha patrocinado, trata-se de um Estado virtual, isto é, de agentes políticos que representam concepções sobre nação, estado e direito totalmente diferentes daqueles conhecidos pelo Ocidente. Neste Estado virtual inexistente juridicamente mas existente culturalmente para alguns extremistas, Estado e Religião não podem e não devem se separar. Foi justamente a separação destas duas “forças” que gerou a ordem liberal estatal, com paz interna na França (após a superação dos conflitos religiosos seculares no final do Antigo regime), eliminação de conflito social e normalização da força monopolítica dos soberanos (ou da soberania). O ataque em Paris trata-se, antes, de afetar o coração do contrato social estatal do que de atacar à imprensa. Inevitavelmente, após o atentado, o controle, a organização, a gestão e a utilização do poder estatal francês são questionados, seja pelo governo consolidado na França, seja pela população. Como ato político, o ataque infelizmente atinge (embora não necessariamente abale) a ordem vigente. A população e o governo passam a refletir e questionar sobre o controle, a organização, a gestão e a utilização do poder estatal francês. Aqui está o perigo da repercussão da ação terrorista, assim como as novas possibilidades oriundas de tal questionamento. Justamente sobre a ordem estabelecida os extremistas islâmicos se rebelam: declaram que não obedecem à ordem vigente europeia (melhor, ocidental). Este grupo e outros grupos de ação terrorista religiosa carecem de um poder administrativo formal, daí constituírem um Estado virtual próprio. Naturalmente o fato de não estarem inseridos na ordem jurídica não os impede de existir. Exatamente na França do Comitê de Saúde Pública, de Robespierre, os extremistas parecem querer estabelecer exatamente um Estado virtual, que possa em determinados momentos se sobrepor ao Estado formal, espalhando terror e medo nos agentes políticos protagonistas franceses. E não foi assim que se impôs Saint-Just? Contudo, Robespierre e Saint-Just lutavam, com terrorismo político, por uma França que era deles, onde nasceram e a partir de onde entendiam o mundo. A complexidade do terrorismo europeu está no fato de que alguns extremistas também consideram a França sua (ou consideram mesmo o mundo inteiro deles). As manifestações realizadas pelos franceses no mesmo dia, à noite, foram exemplares. A ausência de apelo a uma “vingança” generalizada (o que aumentaria em muito os objetivos deste “Estado Virtual”) é o sinal de como está enraizado na França uma compreensão profunda sobre sua própria história e consolidação de seu Estado. A França de hoje entende que métodos terroristas de reinvindicações políticas são particularmente atrasados (se considerarmos a evolução do Estado na França) e despertam à consciência popular, de franceses que possuem a sua história viva como patrimônio, um sentimento de ojeriza todo especial e profundo, diferente do que poderia ocorrer em outros países ocidentais.  Esta luta de forças entre um Estado Real e um Estado Virtual é mais um capítulo da já longa batalha que vem ocorrendo no mundo desde especialmente o final da Primeira Guerra Mundial, quando todo o arranjo geopolítico europeu desmoronou e a sua substituição foi especialmente inadequada para o Oriente Médio. Os representantes de grupos islâmicos radicais (radicais pan-islâmicos) ainda estão naquela época de Saint-Just, contudo querendo fazer revolução em terras alheias (ou ao menos de maiorias alheias). A França, se continuar reagindo com profundo sentimento democrático, sem dúvida dará uma lição importantíssima para as próximas décadas. Sua reação ao terror deve ser pela democracia e com a democracia, sem cair em vinganças que empoderam ainda mais a tensão Estado e Religião e que almejam atingir o cerne do Conceito do Estado francês. Por ter sido um ataque a um jornal, é natural que a mídia faça a si mesma uma autoreferência. Contudo, a luta é maior, mais complexa do que exclusivamente ataque à liberdade de imprensa. Esta é a hora de o Estado Social francês se fortalecer ainda mais, em vista de um progressivo e aprofundado processo de integração sócio-cultural. A união entre governo francês e muçulmanos não extremistas é fundamental para alijar ao máximo do jogo (e atos) os políticos extremistas. Movimentos como os ocorridos na Alemanha, contrários à imigração islâmica, podem rachar muçulmanos não extremistas e governo francês. Igualmente, movimentos de cunho xenófobos na França após este ataque, fortalecerão justamente os franceses mais radicais xenófobos. O quebra-cabeça político está dado e tipos como Marine Le Pen podem em muito se fortalecer. Será este o destino que a França quer para si? O ato político dos terroristas foi realizado. A primeira resposta popular francesa também foi um ato político inteligente e superior. Restam os dias próximos para que o sentimento de ojeriza da população se transforme em ódio ou em superação. O primeiro serve aos interesses dos radicais. O segundo, em nada passivo, serve ao bastião que a França construiu como entendimento político e, pragmaticamente, pode elevar a França como líder em uma maneira própria, inteligente e pragmática de combate ao terror.   André Marinho,  é ator, filósofo e observador da política nacional e internacional.

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