Ao contrário do que se pensa no vulgar, a esquerda tem uma longa história no Brasil, e este é um país muito longevo. O país é herdeiro de Portugal, aquele que é a nação mais antiga do mundo moderno, e de fronteiras mais estáveis por mais longo tempo, desde o século XIII, descontados os períodos de ocupação pelos espanhóis e pelos franceses.
No arquivo da esquerda brasileira, sem levar em conta os tempos coloniais, podemos listar: a maçonaria vermelha (primeira metade do século XIX), os republicanos e abolicionistas exaltados (segunda metade), os maximalistas (começo do século XX), os anarquistas, até chegarmos à fundação do Partido Comunista do Brasil, em 1922, junto com a Semana de Arte Moderna e, em 24, à revolta do Forte de Copacabana. Ainda há os movimentos camponeses, como o de Canudos. E desse conjunto ainda fazem parte um romancista como Lima Barreto e um pensador como Manuel Bonfim. E lá atrás um militar como José de Abreu Lima, que lutou como Simon Bolívar. Não vamos mencionar os "meramente" progressistas, para não alongar a lista.
Buenas, mas tudo isso é muito desconhecido, e o fato é que as esquerdas brasileiras acham que se inventam a cada momento histórico, e que, como um Luís XIV ao contrário, decretam: avant nous, le rien; antes de nós, o nada. E ao lado também, pois nossos companheiros de caminho, que seguem por outras rotas, não passam de vis traidores da causa, e desde sempre.
No Brasil republicano, em nível federal, tivemos quatro momentos de movimentação à esquerda, e neles as esquerdas, ao lado de lutas extraordinárias por sua generosidade (provavelmente de origem cristã) incorreu também em equívocos notáveis, motivados por um erro de paralaxe, entre a avaliação de sua posição e a análise da conjuntura política. Antes de prosseguir, explico a expressão, não por acaso: a origem do "erro de paralaxe" está na fotografia, mais diretamente na diferença que existe na leitura da cena fotografada entre a do visor, no olho do fotógrafo, e a da lente, no coração da máquina.
Os momentos foram: a Revolução de 30, o segundo governo de Vargas, de 51 a 54, o governo de João Goulart, e a agora o governo de Lula. Examinemos.
Na Revolução de 30, Prestes e o Partido Comunista incipiente não tomaram parte. Foi um erro. Prestes foi provavelmente o líder político mais impoluto da história do Brasil. Cometeu erros tremendos, mas jamais em nome de algum proveito pessoal. Na conspiração de 30, recebeu dinheiro para compra de armas na Argentina. Não tomou um único centavo para si. Entregou a grana para o Partido Comunista, em ajuda aos companheiros no exílio, para pagamento de dívidas e outras funções revolucionárias. Um exemplo, para quem andou recebendo carros de presente e achou que podia sair de fininho. Mas a recusa dele e do Partido quanto à participação no movimento de 30 privou este de uma esquerda organizada, ainda que, no contexto, ele fosse popular, libertário, e inovador; e privou as esquerdas de uma participação no movimento mais importante que já houve no Brasil, no sentido de sua modernização. O movimento ficou preso no círculo de giz liberal, as esquerdas ficaram presas no círculo de giz de sua imaginação revolucionária, que andava longe, nessa altura, do "real brasileiro", o conjunto de circunstâncias da conjuntura e de aspirações das camadas sociais emergentes ( e também das detergentes, as classes dominantes).
Ao final do segundo governo de Vargas houve, quanto às esquerdas, um movimento patético. O Partido Comunista, ainda que fora da lei, era o movimento hegemônico de esquerda. Padecia de alianças populistas, em nome da "revolução nacional e burguesa", que tinha por aliada uma burguesia recalcitrante, não só em fazer uma revolução, mas até em ser uma burguesia digna do nome, achando mais importante manter os anéis em detrimento da independência dos próprios dedos. Mas, além disso, olhando para seu passado, as esquerdas amargavam não só a terrível repressão durante o