Os dois eixos da gestão do governo do presidente Evo Morales Ayma - o econômico e o político - estão parcialmente paralisados numa zona de turbulência. A renúncia de Andrés Soliz Rada ao Ministério dos Hidrocarburetos evidenciou a falta de homogeneidade do governo numa área-chave para a administração socialista. Ao mesmo tempo, a falta de avanços na Assembléia Constituinte ameaça desprestigiar prematuramente aqueles que têm a missão de proporcionar à Bolívia uma nova Constituição, construindo os pilares de uma segunda república "pós-colonial".
Na semana passada, Soliz Rada - um velho representante da "esquerda nacional"- chutou o tabuleiro quando emitiu a resolução ministerial 207/2006 que dispunha o monopólio estatal da comercialização do petróleo e dos seus derivados e excluía a brasileira Petrobrás - proprietária das refinarias. Luiz Inácio Lula da Silva não demorou em qualificar a medida, diante dos seus colaboradores, como "uma sacanagem". Evo Morales ordenou voltar atrás e preparou - desde Havana - o caminho para a primeira mudança ministerial dos seus oito meses de governo. Na segunda-feira, nos Estados Unidos, em entrevista nos estúdios da CNN, o mandatário boliviano declarou que, com a renúncia de Soliz Rada, o aspecto técnico da política de hidrocarburetos ficaria fortalecido "uma vez que a linha política já está definida". No mesmo dia, Soliz Rada provocou uma nova rodada do terremoto da sexta-feira, quando apresentou seu pedido de renúncia.
"Alguns querem que a nacionalização fique no papel; dentro do governo existe uma permanente pugna pela aplicação do decreto (de 1º de maio passado)", acusou Soliz Rada, e acrescentou que nunca contou com atribuições para nomear seus vice-ministros, cujos nomes foram enviados do Palácio Quemado, deixando-o "impedido de formar uma verdadeira equipe ministerial".
Apesar de a resolução - prelúdio da estatização das refinarias por meio da venda obrigada para o Estado de 50 por cento mais um das ações - enquadrar-se no marco do decreto de nacionalização, Soliz Rada bateu de frente com um acordo de alto nível: Evo Morales havia se comprometido com o presidente brasileiro - através do vice-presidente Álvaro García Linera - que não seriam tomadas medidas que prejudicassem as possibilidades eleitorais de Lula na reta final da campanha pela reeleição. A falta de tato político selou a sorte do ministro, que conta com a simpatia de grande parte da sociedade boliviana, especialmente os campesinos, por sua posição em defesa dos recursos naturais.
"Soliz Rada agia sozinho, tomava decisões sensíveis sem consultar o presidente, procurava muito destaque pessoal", diz um funcionário de primeira linha, admitindo que a confiança no ex-jornalista e nacionalista começou a ruir sem retorno. A ninguém passou despercebido que foi o vice-presidente García Linera e não Soliz Rada quem retomou, algumas semanas atrás, as paralisadas negociações com o Brasil. Com o mais conciliador Carlos Villegas - um economista acadêmico que até agora era ministro do Planejamento - o governo de Morales tenta "recuperar o ambiente de confiança" entre La Paz e Brasília.
A Petrobrás opera as refinarias Gualberto Villarroel, em Cochabamba, e Guillermo Elder, em Santa Cruz. Elas foram adquiridas em 1999 - durante o governo de Hugo Banzer e Jorge Quiroga, atualmente líder da oposição conservadora - e produzem 90% dos carburantes que são consumidos no mercado interno. Além disso, a companhia brasileira, com investimentos na Bolívia que chegam a 1,1 bilhões de dólares, controla 46% das reservas provadas e prováveis de gás e 39,5% das de petróleo.
As empresas petroleiras e setores da oposição receberam com certo otimismo as mudanças na equipe que se ocupa dos hidrocarburetos, percebidas como sinais de maior flexibilidade. Mas na agenda ainda há temas candentes, como a negociação de novos preços para o gás que é vendido ao Brasil e a refundação da estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bo
Os confrontos mais recentes na Bolívia
Por Pablo Stefanoni - Os dois eixos da gestão do governo do presidente Evo Morales Ayma - o econômico e o político - estão parcialmente paralisados numa zona de turbulência. A renúncia de Andrés Soliz Rada ao Ministério dos Hidrocarburetos evidenciou a falta de homogeneidade do governo numa área-chave para a administração socialista. (Leia Mais)
Quinta, 21 de Setembro de 2006 às 09:03, por: CdB