Rio de Janeiro, 06 de Setembro de 2026

Os bons tempos da livraria Maspero

Por Rui Martins - Com esse título até pareço ser masoquista. Mas é verdade, apesar do dinheiro curto, de viver num quarto de hotel sem janela e apenas uma clarabóia no teto, de poder comer só no restaurante universitário com carta de estudante falsificada, aquele ano de 1969 em Paris, começo do meu exílio, foi a ruptura que me levou ao sabor da vida, nos anos seguintes.

Quarta, 15 de Abril de 2015 às 12:07, por: CdB
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A livraria Maspero fazia parte do sonho juvenil de revolucionários
Com esse título até pareço ser masoquista. Mas é verdade, apesar do dinheiro curto, de viver num quarto de hotel sem janela e apenas uma clarabóia no teto, de poder comer só no restaurante universitário com carta de estudante falsificada, aquele ano de 1969 em Paris, começo do meu exílio, foi a ruptura que me levou ao sabor da vida, nos anos seguintes. Vivia num hotel, já não mais existente, no 4 rue de la Sorbonne, quase na rue des Écoles, em frente à Sorbonne. Era em pleno Quartier Latin, ainda sob o impacto da revolta estudantil. Na esquina, um restaurante chique, onde só entrei uma vez para beber alguma coisa, convidado pelo exilado português Barradas de Carvalho, ex-professor na USP, fugido igualmente dos militares brasileiros e da limpeza feita nas universidades. Ali eu via entrar, vez ou outra, o cineasta Jean-Luc Godard. Não se precisava ir longe para viver Paris, a Paris de Ilya Ehrenburg, cujos livros eu lia entre reportagens, na redação do Estadão, ainda na major Quedinho, de nada adiantando as advertências de Oliveiros e Tamer de se tratar de um ex-estalinista. Essas sutilezas do comunismo só iria descobrir pouco a pouco no convívio com o esquerdismo francês, mesmo porque desembarcara em Orly logo depois da invasão de Praga pelos tanques soviéticos, considerada pelos companheiros no Brasil como ação protetora do comunismo por traidores como Dubcek. Ora, do meu barato Hotel de La Sorbonne, mas de nome pomposo, não ficava longe o centro do trotskismo parisiense, a livraria La Joye de Lire mais conhecida como a livraria Maspero. Criada por François Maspero, ali na rue de la Huchette, o livreiro e escritor cuja morte acaba de ocorrer, aos 83 anos, em Paris, quase coincidindo com as mortes de Galeano e Grass, num fim-de-semana carregado e pesado, no qual também morreu Judith Malina, criadora com Julian Beck, do Living Theater, conhecido como teatro das ruas, presos durante alguns meses no Brasil na época da ditadura. A Livraria Maspero era o ponto central ou de irradiação da cultura contestatária daqueles anos, onde se encontravam os livros e os cartazes dos movimentos revolucionários de independência anti-colonizadores e anti-imperialistas. Era a época da mobilização mundial contra a guerra dos americanos no Vietnã. Longe estaria de pensar, naquele fim de 1969 quando a polícia parisiense atacava manifestantes pró-Vietnã na ilha da Cité que, vinte e sete anos depois, passearia de bicicleta usando um capacete verde com estrela vermelha de vietcong pelas ruas de Hanói. Paris não era o centro de turismo de hoje e à volta da livraria havia restaurantes baratos e os nutritivos sanduíches tunisianos, para alimentar a juventude desejosa de reformar o mundo. Quem não tinha com o que comprar os livros expostos, achava sempre um jeito de levar sem pagar, uma das razões da falência de Maspero, além dos problemas com censura e apreensão de livros. Era ainda a época da revolução pela violência e num dos cinemas próximos se podia ver La Hora de los Hornos, do argentino Solanas. A juventude curtia os Beatles e um de meus sobressaltos com um líder da esquerdona foi sua afirmação de que não tinha tempo para curtir música e, portanto, não conhecia os Beatles. Maspero foi um dos últimos postos revolucionários, quando muitos curtiam a Revolução Cultural chinesa, ouviam a Rádio Tirana da Albânia e queriam ir para Cuba. Sonhos juvenis de uma época, dos bons tempos da livraria Maspero. Rui Martins,jornalista, escritor, ex-correspondente do Estadão e CBN, autor dos livros Dinheiro Sujo da Corrupção e A Rebelião Romântica da Jovem Guarda. Líder emigrante foi eleito duas vezes para o Conselho dos Representantes de Brasileiros do Exterior, criado por Lula para politizar a emigração mas narcotizado pelo governo Dilma. Editor do Direto da Redação
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