Rio de Janeiro, 07 de Setembro de 2026

Os 70 anos de Soledad, traída pelo cabo Anselmo

Por Urariano Mota - No começo deste mês, no Luis Nassif Online foi lembrado o que eu sabia, mas não estava desperto: no mais recente 6 de janeiro, Soledad Barrett Viedma completaria 70 anos. Quem chamou a atenção foi um pessoa, de nome Mara L. Baraúna, a quem ainda não conheço. Mas como ela foi oportuna. Para quem não sabe, Soledad Barrett Viedma foi uma socialista paraguaia, grande e bela mulher, que viveu no Recife. Ela foi companheira, esposa do Cabo Anselmo, que a entregou, grávida, para a repressão da ditadura em 1973.

Sábado, 17 de Janeiro de 2015 às 14:34, por: CdB
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Se o Cabo Anselmo não tivesse traído sua companheira grávida, Soledad teria completado 70 anos
No começo deste mês, no Luis Nassif Online foi lembrado o que eu sabia, mas não estava desperto: no mais recente 6 de janeiro, Soledad Barrett Viedma completaria 70 anos.  Quem chamou  a atenção foi um pessoa, de nome Mara L. Baraúna, a quem ainda não conheço. Mas como ela  foi oportuna.  Para quem não sabe, Soledad Barrett Viedma foi uma socialista paraguaia, grande e bela mulher,  que viveu no Recife. Ela foi companheira, esposa do Cabo Anselmo, que a entregou, grávida, para a repressão da ditadura em 1973. Sobre o livro que escrevi inspirado na sua pessoa, posso agora falar três coisas: A primeira delas é que o livro “Soledad no Recife”, publicado em 2009, é a soma de várias buscas, derrotas e terror. Buscas num sentido maior que o de pesquisas, entrevistas, descobertas e enganos. A maior busca foi achar o tom, a fala, o caminho que me fizesse correr sem tropeços na escrita. Isso não foi nem é fácil, porque significa o escritor achar a voz da narração, a voz do narrador. No dia em que observei que o narrador – para o caso de “Soledad no Recife” - devia falar na primeira pessoa, usando o pronome eu, foi um acontecimento na minha vida. Quando percebi que o livro andava então sem artifício, sem artificialismos, a vontade que tive foi de soltar fogos, soltar uns foguetes, que no sudeste do Brasil chamam de rojão. Eu fiquei contente e feliz, a ponto de anotar na margem do caderno: achei o caminho! As derrotas acumuladas vêm antes e durante o processo da escrita de Soledad. Quando trabalhei no romance anterior, “Os Corações Futuristas”, o clímax se dava na repressão e assassinatos do ano da desgraça de 1973. E tentei, ali, abordar a figura e espectro do Cabo Anselmo. Fracassei. Meu amigo Mário, que não é crítico literário, mas é um leitor inteligente, militante provado daqueles anos, foi quem me chamou a atenção, dizendo que o Cabo Anselmo, nas páginas de “Os corações futuristas”, estava muito abaixo do traíra na vida real. Eu não gostei de ouvir isso, é claro, mas travei, travei amargo e fiquei repassando na boca essa fruta tamarina, ácida, mas indispensável. E quando tentei escrever sobre Soledad pela terceira vez, pude ver que a tragédia de Sol se unia ao papel do vilão Anselmo. E em vez de condená-lo de modo apriorístico, alertado que estava pela crítica de Mário, pus-me a estudá-lo –pus-me, a palavra é própria, pus – e o persegui em reflexões e vídeos e livros e entrevistas. O resultado parece que não foi mal, ao tentar flagrar o processo da sua consciência. Sim, até Anselmo tem consciência. Esperta, egoísta e canalha. Já o terror veio, primeiro,  porque aqueles anos da ditadura Médici são o máximo do terror de Estado no Brasil. Hoje, quem é jovem não sabe o que é isso. O terror é um rapaz de 22 anos  - “era um rapaz de 25 anos”, cantava Gil no tropicalismo – é você não ter projeto para os próximos 5 anos, porque os seus amigos e conhecidos estão sendo mortos e caçados, porque as pessoas mais altas na sua afeição caíram na clandestinidade, e ninguém sabe se morreram ou se já estão sendo torturados, e abriram o seu nome sob tortura. Ora cinco anos... você não se projetava nem um ano mais de vida. Você poderia ser o próximo.  O terror era também o terror da neurose, era andar pelas ruas decorando placas de carros, para ver se se repetiam mais adiante, ou se batiam com placas anotadas por outros companheiros, de veículos que sequestravam militantes.  O terror, ainda, era extrair dentes sem anestesia no dentista, para se acostumar á dor quando fosse preso. Eram tantas formas de terror, que lembradas hoje chegam às raias do cômico. Mas o cômico era trágico, real e doía muito, até a degradação humana. E mais: o  terror também continuou na escrita do livro, porque as pessoas que testemunharam o massacre de 1973, que conheceram o Cabo Anselmo e Soledad Barrett,  se negavam a falar, desconversavam, porque ainda hoje Anselmo e sua gang estão ativos. Mas um escritor não tem o direito de ser covarde na escrita. Um escritor pode ser covarde como pessoa física, nas ruas, na briga do trânsito, ou n briga do bar. Mas ele não pode se acovardar quando escreve. Ou será apenas um burocrata, um escrevente de cartório, um corrompido na alma. A pior forma de corrupção. Então, meus amigos, por entre um mar de terror e fracassos, escrevi “Soledad no Recife”. E para reconstruir essa paixão do narrador por Soledad Barrett, que os leitores percebem e dão fé e testemunho, tive que reconstruir as dezenas de mulheres guerreiras que eu conheci na vida dura, de belíssimas mulheres guerreiras. Mulheres cuja beleza vinha mais do que faziam do que das formas físicas. E confesso que fiquei até meio corajoso, porque para falar sobre o livro e ir a lançamentos, cheguei a andar de avião, logo eu, que não suporto nem roda-gigante. Então, este escritor que é ateu, rascunhei um dia,  num diário,  lá em cima. Eu não podia rezar um oração enquanto o avião balançava entre as nuvens, como se fosse um carro passando por buracos na estrada. Anotei, como quem reza: a que coisas me expõe o amor à literatura. *Áudio na Rádio Vermelho http://www.vermelho.org.br/noticia/256876-35. Urariano Motaescritor e jornalista. Autor do romance Soledad no Recife, sobre o assassinato pela ditadura brasileira da militante paraguaia Soledad Barret, grávida, depois de traída e denunciada por seu próprio amante o Cabo Anselmo. Escreveu também O filho renegado de Deus e seu livro mais recente é o Dicionário Amoroso do Recife. Seu primeiro livro foi Os Corações Futuristas, um romance na época do ditador Garrastazu Médici. Na juventude publicou artigos, contos e crônicas nos jornais Movimento e Opinião. Direto da Redação é um fórum de debates, do qual participam jornalistas de opiniões diferentes, dentro do espírito de democracia plural, editado, sem censura, pelo jornalista Rui Martins
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