O começo de campanha de Geraldo Alckmin, já candidato único do PSDB, não podia ser mais revelador: em Campinas, saiu em defesa da Tradição, da Família (bases da Pátria, com os Costumes e a Religião) e da Propriedade (ao atacar uma suposta complacência de Lula para com o MST, pois lhe faltaria a Autoridade). Pairava ainda alguma dúvida sobre o governador de S. Paulo pertencer, de coração e mente, à Opus Dei? Ele respondeu: o seu agora auto-propalado gosto de chuchu disfarça o travo da TFP...
O apelido de "picolé de chuchu" descreve bem a fachada de Alkmin; mas na verdade ele se revelou um combatente tenaz, algo feroz, e de direita. Todas as conversas extra-oficiais e as carrancas dos envolvidos mostravam que a luta interna, no PSDB, entre serristas e alckmistas, assistidas a cavaleiro por um sorridente Aécio, foi dos mais violentos embates de bastidor que já houve na política brasileira.
Para a torcida, mostravam-se cenas olímpicas de uma luta elegante: a "Ceia dos Cardeais" (nome de uma peça que foi famosa no Brasil e em Portugal, nos idos de 20) no Massimo, um "Breakfast at Tiffany's"(nome de um filme famoso, com Audrey Hepburn, "Bonequinha de Luxo"), no Palácio dos Bandeirantes. Mas nos bastidores, era a luta armada, o vale tudo: teve golpe de karatê, dedo enfiado no olho, pescoção, carrinho, tesourada, do gogó para baixo tudo era canela.
O acalorado da disputa é muito significativo. Nada de projetos para o Brasil, políticas alternativas, sejam mais à direita ou mais à esquerda, ou coisas de tal naipe, estavam em discussão. O que importava mesmo era simplesmente o controle da máquina partidária, para o presente e para o futuro, e a ocupação do espaço de candidato.
Enquanto a luta se acirrava atrás do palco, na imprensa conservadora choviam artigos propalando que não tinha sentido cobrar de Serra a promessa feita de permanecer na prefeitura até o fim do mandato (embora uma pesquisa indicasse que 67% do eleitorado paulistano preferisse o cumprimento da palavra).
Para o colégio dos cardeais tucanos, também pouco importava a palavra empenhada com os eleitores, pois Serra parecia ser o único candidato da gaiola para bater o que, durante algum tempo, se julgou ser o arrasado Lula. Mas... ocorre que, além de empenhar a palavra com a plebe e a aristocracia paulistanas, o prefeito empenhara a palavra... com Alckmin, que ajudou sim Serra a se eleger. E o colégio cardinalício também empenhara a palavra com Alckmin: na troca de favores, este apoiaria com tudo Serra para este chegar à prefeitura, mas em 2006, seria a vez dele.
Lembram-se, leitores e leitoras, daqueles gigantescos engarrafamentos no segundo semestre de 2004, logo antes das eleições paulistanas e logo depois das inaugurações das obras viárias da gestão de Marta Suplicy? Pois é, naqueles momentos cruciais lá estava a PM, de controle estadual, fazendo batidas e mais batidas nas marginais, numa situação crônica em que se sabe que basta haver um caminhão com pneu furado no acesso a uma das pontes que atravessam o Tietê ou o Pinheiros, para que o trânsito em São Paulo simplesmente congele.
Alckmin resolveu cobrar a conta, de tudo e de todos. Então, quando Lula parecia imbatível, o candidato podia ser ele, pois era mesmo para perder? E agora, em que havia (e ainda há, é bom não esquecer, porque eleição só se decide quando os últimos votos são registrados) chance de ganhar, o candidato seria outro? Ah, não: o chuchu resolveu sair da cerca e pôr-se a campo e ganhar o prometido pódio partidário que agora ameaçavam lhe roubar.
O notável nesta história tão "edificante" é que Alckmin e sua "República de Pindamonhangaba" conseguiram não só enquadrar Serra, como conseguiram roubar a cena ao colégio de cardeais que, normalmente, deveria ocupar o espaço decisório no emplumado imaginário tucano. Serra e os serristas lançavam cantos de sereio em direção à esquerda, conseguindo adeptos, inclusive entre remanescentes do finado (ma non