Rio de Janeiro, 14 de Setembro de 2026

Oposição quer investigar participação do BNDES em fusão de supermercados

Sexta, 01 de Julho de 2011 às 08:25, por: CdB

Deputados do PSDB, do DEM, do PPS e do Psol apresentaram nesta semana, em várias comissões permanentes da Câmara, requerimentos de audiência pública para discutir o possível financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) à fusão dos grupos Pão de Açúcar e Carrefour.

Entre os convidados para prestar esclarecimentos estão o presidente do BNDES, Luciano Coutinho; e o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel. Além das audiências públicas, o DEM preparou um requerimento de informações ao ministério, que terá 30 dias para respondê-las, a partir da notificação.

A fusão entre Pão de Açúcar e Carrefour envolve uma operação de R$ 5,6 bilhões, dos quais cerca de 4,5 bilhões poderiam ser financiados pelo BNDES. Para o líder do PSDB, deputado Duarte Nogueira (SP), não há argumento que justifique o uso de recursos públicos para financiar uma operação que ampliará a concentração do mercado varejista brasileiro e poderá causar desemprego.

"Nós já temos, na atual fusão do Pão de Açúcar com os seus adquiridos, alguma coisa na ordem de 30% do mercado. Isso vai elevar ainda mais a concentração. Os fornecedores da rede varejista vão perder poder de barganha. Acho que nenhum novo emprego deve ser gerado, já que, se vai haver fusão, deve haver otimização das estruturas e haverá desemprego e aumento dos lucros e do valor agregado das operações do Pão de Açúcar."

Perda de soberania
Ex-presidente do BNDES no governo Lula, o economista Carlos Lessa disse que a fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour pode determinar a perda de soberania do Brasil no setor varejista, a exemplo do que, segundo ele, teria ocorrido na fusão da cervejaria Ambev com a belga Interbrew.

"Essa operação só interessa à família do controlador [Abílio Diniz], que já havia se entregue a um grupo francês, o grupo Casino, e que agora está querendo trocar a bandeira francesa, de Casino para Carrefour. Eu não sei o que essa troca de bandeira francesa justifica para que o BNDES aplique quase 2 bilhões de euros. Para mim, essa é uma operação de baixíssimo interesse para o Brasil e de altíssimo interesse para o Abílio Diniz", disse Lessa.
O grupo Casino, que é concorrente do Carrefour, já se manifestou contra a fusão.

Internacionalização
Em audiência na Câmara, na quarta-feira, o ministro Fernando Pimentel disse que a participação do BNDES na operação ainda está sendo estudada. No entanto, Pimentel listou vantagens que a fusão Pão de Açúcar-Carrefour poderá trazer para a economia brasileira.

"Eu não vejo essa operação como fora do comum. O banco tem autonomia para avaliá-la, julgar o risco e fazer ou não o aporte de recursos necessários", disse o ministro.

Ele afirmou que a fusão pode ter importância estratégica para o Brasil, por ampliar a inserção de produtos industrializados brasileiros no mercado internacional. "Esse seria o grande objetivo do governo se, porventura, o BNDES vier a participar da operação, o que ainda não está decidido."

Fernando Pimentel destacou que os efeitos da possível fusão também serão analisados pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Em nota divulgada ontem, o BNDES caracterizou a fusão como um "processo de internacionalização” do grupo Pão de Açúcar, com alto potencial de criação de valor para todas as partes envolvidas.

Para o deputado Duarte Nogueira, no entanto, não haverá internacionalização do Pão de Açúcar, mas sim a sua desnacionalização. Ele afirma que, para debater esse assunto, é fundamental que o presidente do BNDES compareça à Câmara.

Reportagem – José Carlos Oliveira/Rádio Câmara
Edição – Pierre Triboli

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