Um dia depois de assumir o poder no Quirguistão num golpe relâmpago, a oposição política no ex-Estado soviético nomeou um novo presidente interino, na sexta-feira, e obteve o apoio quase imediato, e vital, da Rússia.
Líderes da oposição anunciaram, na sexta-feira, que pretendem realizar eleições presidenciais no país em junho.
O governo do veterano presidente Askar Akayev, que deixou o país, caiu na quinta-feira, depois que milhares de manifestantes invadiram o principal edifício administrativo na capital Bishkek, mergulhando a cidade centro-asiática numa orgia de saques.
"Ninguém teria desejado uma revolução como essa", disse à televisão estatal Felix Kulov, que foi libertado da prisão por defensores na quinta-feira e nomeado primeiro-ministro interino. "Foi uma orgia de saques, como o que aconteceu no Iraque."
Pelo menos um homem foi morto a tiros durante os saques, à noite, e 31 policiais ficaram feridos, um deles gravemente, segundo Kulov. Tiros foram ouvidos durante toda a noite na capital quirguiz, que tem 800 mil habitantes.
Os tumultos na capital se seguiram a protestos violentos realizados no início da semana no sul do país, mais pobre.
O embaixador do Quirguistão nos EUA descreveu o que aconteceu como golpe de Estado. "Foi um golpe anticonstitucional", disse Baktybek Adrisaev à CNN.
De acordo com a agência russa Itar-Tass, Akayev teria confirmado sua saída do país, mas afirmou que não renunciou e acusou a oposição de um "golpe inconstitucional".
Mas o presidente russo Vladimir Putin afirmou que Moscou está disposta a trabalhar com a oposição quirguiz e ofereceu refúgio na Rússia a Akayev.
"Conhecemos essa gente (a oposição) bastante bem, e eles já fizeram muita coisa para estabelecer boas relações entre a Rússia e o Quirguistão", disse Putin a jornalistas, durante visita à Armênia.
Em Bishkek, vidros quebrados das vitrines de lojas se espalhavam pelas ruas, após uma noite de saques, e a situação continuava tensa na sexta-feira.
O Quirguistão é o terceiro ex-Estado soviético em três anos, depois da Geórgia e da Ucrânia, em que eleições contestadas foram seguidas por uma revolta que derrubou a liderança constituída.
Dessas três, apenas a revolução quirguiz foi violenta, e apenas seu governo oposicionista conseguiu de imediato o apoio de Moscou, que antigamente regia a região.
E, diferentemente das novas lideranças da Geórgia e Ucrânia, a oposição quirguiz não demonstra nenhum interesse em voltar-se ao Ocidente, afastando-se da influência russa.
Pelos padrões dos governantes autocráticos que dominam a Ásia Central, Akayev era relativamente liberal, mas não conseguiu aliviar a pobreza dos 5 milhões de habitantes do Quirguistão, a maioria dos quais sobrevive com um dólar por dia.
Foi essa, segundo analistas, a causa subjacente dos protestos contra os resultados das eleições parlamentares de fevereiro e março, nas quais a oposição foi derrotada por larga margem e que, segundo observadores internacionais, apresentaram falhas.
O líder oposicionista Kurmanbeck Bakiev, que desempenhou papel central nos protestos que afastaram Akayev do poder, disse que foi nomeado presidente interino.
"Hoje o Parlamento me nomeou primeiro-ministro e me conferiu as funções de presidente", disse a partidários seus em Bishkek.
Analistas políticos dizem que os principais líderes da oposição se opõem entre si. Kulov, que foi libertado da prisão na quinta-feira, é visto como mais popular do que Bakiev.
A maioria dos líderes oposicionistas já integrou o governo durante algum momento dos 14 anos em que Akayev ocupou o poder.
Kulov chegou a ser chefe de polícia e a dirigir o Ministério de Segurança Nacional, sucessor da KGB.
Foi enquanto Bakiev foi premiê, até 2002, que a Força Aérea norte-americana foi autorizada a construir uma base perto de Bishkek e que Kulov foi preso por roubo e abuso de poder.