A dona-de-casa Rosa Maria Domingos Soares, uma católica fervorosa de 52 anos, se lembra com afeto de seus avós, que tiveram 12 filhos e nunca usaram métodos anticoncepcionais. Mas isso, hoje em dia, está fora de cogitação.
"Uma família grande é bonito, mas hoje em dia deve-se usar algum tipo de anticoncepcional, devido aos altos custos de educação e alimentação, assim como a violência. Tenho três filhos, mas agora acho que eu não deveria ter tido tantos."
Na América Latina, na Ásia e na África, católicos que lutam para cuidar de famílias grandes, apesar da pobreza e da epidemia de Aids, enfrentaram um dilema devido à oposição do papa João Paulo 2o. à contracepção. Alguns esperam que seu sucessor mude isso.
Muitos católicos simplesmente preferiram ignorar os ensinamentos de Roma. Mas a proibição do Vaticano a todos os métodos artificiais de controle da natalidade também levou as pessoas a abandonarem os ritos católicos, por não se sentirem confortáveis indo à igreja e usando preservativos e outros métodos de "sexo seguro".
O Brasil, maior país católico do mundo, assistiu a um declínio de 15 por cento na quantidade de pessoas que seguem a fé católica durante os 26 anos de pontificado de João Paulo 2o.
"O catolicismo rural é muito rígido, e muita gente nessas áreas agora se declara não-religiosa, não por ser agnóstica, mas por discordar de alguns princípios religiosos, entre eles o não à contracepção", disse César Romero Jacob, professor de Ciências Políticas na PUC-RJ.
Ao contrário do que ocorre em outros países, a Igreja do Brasil não cria obstáculos às campanhas do governo que incentivam o uso de preservativos, inclusive distribuindo-os gratuitamente.
"A posição oficial dos bispos do Brasil continua a mesma, a de que a abstinência sexual é a solução, mas eles geralmente reconhecem que o preservativo é um mal menor que a Aids", disse Jacob.
Na África, uma das poucas regiões onde a Igreja cresce, e onde 25 milhões de pessoas são vítimas do vírus HIV, alguns grupos de pressão dizem que o Catolicismo está prejudicando a luta contra a Aids.
"Onde há formas extremas de pobreza, as pessoas dependem das esmolas da Igreja Católica Romana, e quando estas esmolas vêm com o conselho de não usar preservativos, isso tem um impacto muito grande", disse Nadira Omarjee, pesquisadora da entidade Pessoas Opondo-se às Mulheres, da África do Sul. "O próximo papa deve ser alguém que compreenda a realidade do mundo em desenvolvimento."
Os "papabile" africanos-- como o nigeriano Francis Arinze-- consideram que a distribuição de preservativos não conseguiu impedir a difusão da Aids e ainda incentivou a promiscuidade.
Mas ativistas como Frances Kissling, presidente da entidade Católicas pelo Direito de Escolher, com sede em Washington, consideram que o Vaticano vai adotar uma postura mais tolerante a respeito de contraceptivos nos próximos anos, devido à Aids e à superpopulação.
Ela diz que a atual posição do Vaticano é perigosa, já que entidades católicas fornecem tratamento a um quarto de todas as vítimas do HIV e são grandes receptoras de doações. "O problema é que, quanto mais essas pessoas sobrevivem graças ao bom tratamento da Igreja, mais oportunidades têm de infectar outros."
A Igreja diz que Uganda é um exemplo do sucesso da política de abstinência sexual contra a Aids. Mas autoridades da ONU afirmam que a redução da Aids no país africano se deve tanto à promoção dos preservativos quanto à da abstinência.
Como cada vez mais católicos desobedecem à Igreja, as taxas de natalidade caíram rapidamente na América Latina. No Brasil, por exemplo, o número de filhos por mulher caiu de 6 em 1960 para 2,3 em 2004.
Segundo uma pesquisa realizada em 2003 por encomenda das Católicas pelo Direito de Escolher, 91 por cento dos católicos no México e na Colômbia e 79 por cento na Bolívia consideram que adultos deveriam ter acesso a preservativos e pílulas anticoncepcionais.
"Onde a Igreja controla os serviços, a d