No último ano de seu mandato presidencial, a "operação tapa-buracos" representa uma boa metáfora para avaliar o governo Lula. E uma metáfora em duplo sentido: de um lado, um espelho, que retrata uma fisionomia devastada pelas intempéries de inúmeras denúncias, popularizadas e simbolizadas pelo "mensalão"; de outro lado, uma janela, por onde se descortinam resultados bem aquém das expectativas levantadas por sua eleição.
De fato, num e noutro caso, o governo pouco mais fez do que tapar buracos. Com relação à imagem mostrada pelo espelho, foram infrutíferas todas as tentativas de barrar a instalação das CPI's e, depois de instaladas, de impedir seu funcionamento. Uma a uma, o espelho encarregou-se de desmascarar as fissuras e rugas da cara do PT no poder, em flagrante contraste com o PT da oposição. Ao mesmo tempo que se rasgou o véu da ética, escancarou-se a face nua da corrupção e da tradicional promiscuidade entre o público e o privado. A tropa de choque do governo e da base aliada, por mais que tentasse, não conseguiu tapar os rombos abertos pelo trabalho das comissões parlamentares. À medida que cresciam as proporções do "valerioduto", os braços direito e esquerdo do presidente, bem como os principais dirigentes do PT, iniciaram um processo ruidoso e irreversível de declínio e queda.
No que diz respeito ao cenário vislumbrado pela janela, as expectativas de mudança foram frustradas para grande parte dos eleitores. Salvo alguns programas compensatórios, o governo que se elegeu com o discurso do "social" pouco investiu em políticas públicas consistentes e duradouras. Não há planos, não há metas, não há planejamento; apenas uma operação tapa-buracos onde a fome e a miséria se mostram mais escandalosas. Nada de traçar novos rumos, de abrir novas pistas, de apontar novos horizontes; apenas uma operação tapa-buracos nos caminhos construídos pelos governos anteriores. O discurso da mudança, tão enfático nos palanques, foi substituído pela acomodação de um continuísmo sem criatividade. A aliança pela governabilidade e a subserviência ao capital financeiro reduziram o brilho da estrela, convertendo o PT num planeta que, sem luz própria, reflete os raios da boa maré da economia mundial.
O espelho revela, ainda, uma retórica oca e ineficaz, em que as melhores promessas acabam sendo abortadas pelas torneiras fechadas de um orçamento rígida e teimosamente contingenciado. Por falar nisso, onde estão os recursos da CIDE e da CPMF, taxas sobre o preço da gasolina e sobre o valor do cheque, respectivamente, destinadas, a primeira à manutenção das estradas e a segunda à saúde pública? Os compromissos com os especuladores do mercado financeiro têm primazia absoluta, da mesma forma que o pagamento adiantado com o FMI. A saúde, a educação, a reforma agrária, os transportes, enfim, os serviços de infra-estrutura - tudo isso pode esperar! Afinal, para quem já esperou tanto tempo, o que significam quatro anos a mais! Enquanto os indicadores econômicos mostram um desempenho razoavelmente positivo, avolumam-se as dívidas sociais. E assim a voz do Planalto, no programa "café da manhã com o presidente", rola pela mídia como um tambor pelo asfalto: quanto mais vazio, mais barulho faz.
Enquanto isso, pela janela desfilam os rostos desfigurados da multidão dos "sem". São visíveis nas filas do INSS; nas estradas em êxodo forçado; no abandono das ruas e das calçadas; debaixo dos viadutos ou nos lixões; amontoados em favelas, periferias e cortiços; nos acampamentos ao lado de latifúndios improdutivos; nos descaminhos da droga e do álcool; sujeitos a enchentes e deslizamentos, na beira dos rios e nos morros; apinhados em ônibus e trens. Mas são invisíveis para os olhos de grande parte dos meios de comunicação e dos representantes do governo. Entretanto, continuam pagando seus impostos, embutidos em tudo o que se come, se veste, se usa, se compra e se vende. Aliás, a carga tributária é digna de qualquer país desenvolvido, ao pas