A decisão do Supremo Tribunal Federal de extraditar um militar uruguaio abre as portas para o esclarecimento dos crimes cometidos pelas ditaduras do Cone Sul durante a chamada Operação Condor – responsável pela morte do ex-presidente brasileiro João Goulart. A instância máxima do Judiciário brasileiro aprovou na quinta-feira a extradição para a Argentina do coronel da reserva Manuel Cordero, acusado de sequestros e desaparecimentos na década de 1970, inclusive de um menino.
A Operação Condor, na década de 1970, consistiu em operações conjuntas dos regimes militares que dominavam a América do Sul para reprimir opositores. Cordero chegou ao Brasil em 2004 e foi detido três anos depois. Com a decisão do STF, a extradição de Cordero agora precisa ser formalizada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
"Ao decidir enviar Cordero à Argentina, a corte suprema do Brasil está demonstrando que a Justiça internacional funciona, e enviando a forte mensagem de que nenhum país deve ser refúgio para criminosos. O que resta ainda é que o Brasil investigue e faça justiça em centenas de casos de abusos que se cometeram durante seu próprio regime militar (de 1964 a 1984). Um primeiro e fundamental passo para isso é a revogação da anacrônica Lei da Anistia" disse Hugo Relva, assessor jurídico da Anistia Internacional, em nota divulgada pela entidade.
Ao contrário de outros países da região, como Argentina, Chile e Uruguai, o Brasil nunca julgou ninguém por homicídios e torturas cometidos por agentes da sua ditadura, graças à anistia aprovada pelo Congresso ainda durante aquele regime, em 1979. Embora o Uruguai também tenha solicitado a extradição de Cordero, o STF descartou esse pedido, por considerar que os delitos imputados foram cometidos na Argentina, que solicitou a extradição ao Brasil em 2005.