Cento e vinte homens da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), a tropa de elite da Polícia Civil do Rio de Janeiro, tomou de assalto, na manhã deste domingo a Favela do Rebu. Por volta das 9h20m, com o apoio de um helicóptero, em um comboio de 30 veículos, encabeçado pelo blindado conhecido como Caveirão, os policiais fecharam o principal acesso à comunidade e, armados de fuzís de assalto M-16 e FAL-762, metralhadoras M-60 e armas leves, começaram a subir as vielas, em colunas de mais de 10 homens cada uma. A cena foi descrita na edição deste domingo do diário espanhól El País, pelo correspondente Francho Barón. Ele e o fotógrafo Severino Silva presenciaram "uma operação da brutal polícia militar do Rio de Janeiro".
Segundo o diário, as vielas estavam desertas no momento em que os policiais desembarcaram, como se alguém houvesse dado o alerta, minutos antes do desembarque. Na Favela do Rebu, controlada pela facção criminosa Comando Vermelho, os traficantes estabeleceram várias bocas-de-fumo e controlam a vida da comunidade local. Não permitem roubos ou outros delitos nas imediações e, de vez em quando, praticam o clientelismo junto à população mais pobre com a compra de remédios ou botijões de gás.
A etapa deste domingo, de acordo com a matéria publicada no jornal de maior circulação na Espanha, foi apenas mais uma na operação lançada em julho e que tem por objetivo capturar os chefes locais do narcotráfico, "vivos ou mortos". De acordo com o correspondente, "no Rio, se dá por certo que a Core, assim como o Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope), tem carta branca para quase tudo: Pode atirar à queima roupa, invadir residências sem mandato judicial e submeter a interrogatórios qualquer suspeito que pareça ter alguma informação sobre as pessoas procuradas".
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Os policiais que tomaram a favela, em meio à ocupação, depararam-se com uma mulher que, em soluços, pede piedade para seu marido. "Sem se incomodar, a polícia simplesmente a afasta de seu caminho e adentra a casa de onde ela saiu. Lá encontrava-se escondido em um armário A. R. M, um dos principais chefes do tráfico de drogas na favela, que se entrega sem qualquer resistência. O delinqüente é preso e conduzido pelo acesso principal até a entrada do morro, "onde é exibido, como se fosse um troféu de caça, diante dos jornalistas que cobrem a operação", diz a matéria.
"Junto a ele se encontram quatro outros supostos criminosos capturados na ação policial, alguns deles com claros sinais de violência no rosto (um com olho roxo, outro com sangue coagulado entre os lábios...). Não eram pessoas com aspecto de delinqüentes perigosos, mas adolescentes sem camisa, com olhos injetados de tanto fumar maconha ou crack", continua o repórter. Junto com os suspeitos, a polícia exibe um farto material bélico e as drogas encontradas: Três subfuzís Uzi, duas pistolas, várias bombas de fabricação caseira e vários papelotes de cocaína.
"Estes são os temidos soldados do narcotráfico do Rio: Deserdados da terra, em muitos casos, sem noção de bem e mal, drogados e armados até os dentes", presume Barón.
Em seu último informe anual, a Organização Não Governamental Human Rights Watch, no capítulo dedicado à violência policial no Brasil, afirma: "Os policiais que cometem abusos são raramente punidos e, algumas vezes, esses abusos são justificados pelas autoridades como uma conseqüência inevitável de seus esforços para combater as altas taxas de criminalidade no Brasil". Na mesma linha, o renomado repórter carioca Bartolomeu Brito, com 25 anos de experiência na cobertura dos conflitos nas favelas (suas reportagens inspiraram o filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles), opina que a polícia "primeiro dispara e depois pergunta".
– Existe uma solução a longo prazo: Que as autoridades ponham abaixo as favelas e realoquem seus moradores em lugares decentes. Mas, infelizmente, os políticos só pisam nestes lugares quando precisam pedir votos. Uma vez passadas as eleições, desaparecem de novo – denuncia o jornalista.
A reportagem assinala que "o comentário é plausível porque no próximo domingo, dia 28, se disputa a prefeitura do Rio, entre muitas outras, na segunda etapa das eleições municipais brasileiras. Durante esses dias, os candidatos às prefeitura se preocupam em posar para as fotos, sorridentes, junto aos moradores das favelas, onde se concentram 19% da população carioca".