Rio de Janeiro, 30 de Agosto de 2026

A ópera bufa brasileira

Por Rui Martins - Vivemos um momento de ópera bufa, expressão mais sofisticada que palhaçada de circo, e essa comédia nada engraçada para o povo, obrigado a sofrer ajustes e cortes, vai nos custar muito caro.

Terça, 06 de Outubro de 2015 às 12:56, por: CdB
Por Rui Martins, de Genebra, Suíça:
DIRETO-RUI-MARTINS.jpg
O clima político brasileiro é de ópera bufa
De repente a Suíça entrou no noticiário brasileiro. O equivalente à nossa Justiça Federal na Suíça avisou haver um pacote de cinco milhões de dólares no nome de um brasileiro, Eduardo Cunha, por sinal presidente da Câmara Federal. Houve um ligeiro alvoroço, Dilma, Lula e os petistas soltaram um suspiro de alívio, enfim, alguma coisa para desviar a atenção da imprensa, até agora fixada na Lava Jato, nas pedaladas da ciclista presidente e no seu próximo impeachment. Se Eduardo Cunha for obrigado a deixar a presidência da Câmara por ter dinheiro na Suíça, recebido como propina, o pedido de impeachment de Dilma, feito pelo juiz Hélio Bicudo (com extraordinária saúde aos 93 anos), acabará ficando na gaveta. Mas até que ponto ter dinheiro na Suíça é problema para político brasileiro? Por acaso foi ou é problema para Paulo Maluf? E Maluf, além de denunciado pela Justiça suíça, isso em 2002, quando era candidato a governador de São Paulo, continuou sua vida política de parlamentar até hoje. Mesmo com a agravante de ter sido preso em Paris e denunciado num processo nos EUA. Ele só não sai do Brasil para evitar a surpresa de ser preso. Embora a situação de Eduardo Cunha não tenha ainda chegado à de réu na Suíça como suspeito de fraude com dinheiro público, o presidente da Câmara é cuidadoso como o presidente da CBF, Del Nero, e, por via das dúvidas, não sai mais do Brasil, para evitar ser preso como os pilantras da FIFA. Vai imitar os brasileiros da classe média que, diante da alta do dólar, não podem mais ir à Disneylândia em Orlando ou Paris. Porém, dentro do Brasil, não há problema para Cunha por ter conta (não mais secreta) na Suíça. E qualquer dia desses, com a maior tranquilidade, ele colocará na ordem do dia o impeachment da presidente Dilma. E por que ter conta na Suíça não dá problema aos nossos políticos? Ora, porque quase todos eles têm sua conta na Caverna suíça de Ali Babá. Outros mais espertos, vendo estar terminando o segredo bancário suíço, já transferiram seu pecúlio para outro paraíso fiscal mais discreto. Pode-se mesmo deplorar tanta ingenuidade de Eduardo Cunha colocando suas economias na Suíça, provavelmente já bloqueadas. Se tivesse acompanhado o noticiário econômico internacional teria procurado outro banco e outro país. A impunidade é tão grande no Brasil, a ponto dos espertos infratores cometerem erros crassos e não fazerem o serviço bem feito. Sobra vergonha para nós brasileiros, pois são sempre os estrangeiros, no caso a Polícia federal suíça, os denunciantes. Quando não é a Suíça, são as indiscrições do informático francês do banco HSBC as reveladoras das contas de brasileiros, como aconteceu com as listas do Swissleaks. Será que a Receita federal ou o governo tomaram alguma iniciativa contra os detentores dessas contas foragidas do fisco? Mas se o tema é o banditismo nacional com propinas, evasão fiscal, fraudes, enriquecimento ilícito, financiamento de partidos, comissões, de cuja tentação nem o PT escapou para grande decepção de um minoria de esquerdistas visionários, fica evidente ser intocável Eduardo Cunha. Mesmo porque cinco milhões é ninharia, diante das centenas de milhões recebidas por tantos outros no Petrolão. No rol dos tantos envolvidos com desvio do dinheiro público, Eduardo Cunha é pé de chinelo e seus colegas parlamentares, muitos com contas bem maiores, não vão bancar os honestos impugnando o presidente da Câmara, mesmo porque isso poderia provocar um movimento dominó de moralização e denúncias. Vivemos um momento de ópera bufa, expressão mais sofisticada que palhaçada de circo, e essa comédia nada engraçada para o povo, obrigado a sofrer ajustes e cortes, vai nos custar muito caro. A imprensa é acusada de fomentar o descrédito geral, por divulgar o libreto da ópera nos pormenores. Ainda bem, se vigorasse a censura de uma imprensa controlada não saberíamos de nada e não poderíamos rir dessa incrível metamorfose de um governo eleito com tinturas de esquerda, adotando em alguns meses o programa do candidato adversário. Talvez surja uma momento de seriedade nesta quarta-feira com o julgamento das pedaladas da ciclista Dilma pelo Tribunal de Contas. Esperemos. Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, pela recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e rádios RFI e Deutsche Welle. Editor do Direto da Redação.  
Tags:
Edições digital e impressa