A Unctad (agência da ONU para o comércio e o desenvolvimento) apresentou na terça-feira uma espécie de "Plano Marshall" comercial para socorrer os 50 países mais pobres do mundo, com o objetivo de resgatá-los da "armadilha da pobreza".
Segundo o plano, os países ricos permitiriam a entrada de todos os produtos dos 50 países em seus mercados, sem taxações e sem limitações na quantidade.
"Isso pode gerar um aumento na renda de até 8 bilhões de dólares, e um crescimento extra de cerca de 4 por cento, uma imensa contribuição para a amenização da pobreza nesses países", disse Lakshmi Puri, da Unctad, numa entrevista coletiva. Ela foi a autora do relatório.
A concretização do plano, que será apresentado por ministros do Comércio dos países mais pobres numa reunião em Livingston, na Zâmbia, em 25 e 26 de junho, e em seguida enviado a todos os governos dos Estados-membros da ONU, seria de interesse de todos os países, declarou ela.
Entre os 50 países mais pobres do mundo, com renda per capita de menos de 1 dólar por dia, estão: Afeganistão, Bangladesh, Etiópia, Malauí e Haiti. Também estão incluídos nessa categoria pequenas ilhas-Estado como Kiribati e Tuvalu.
De acordo com o plano, inspirado livremente no pacote de ajuda de 1947 que socorreu os países afetados pela Segunda Guerra Mundial, elaborado pelo então secretário de Estado dos EUA George Marshall, as potências industrializadas também devem:
- Comprometer-se a dar acesso especial a prestadores de serviços dos países mais pobres, como agências de turismo, para que eles operem em seus mercados domésticos, e a permitir a contratação temporária de trabalhadores mais qualificados desses países.
- Lançar o fundo "Ajuda para o Comércio", que inicialmente contaria com 1 bilhão de dólares, mas que em dois ou três anos subiria para 15 bilhões de dólares, com o objetivo de ajudar os países pobres a se ajustarem à abertura do mercado e a obter equipamentos e know-how.
Puri, que chefia a Divisão de Comércio Internacional de Bens e Serviços da Unctad, disse que o plano pode ser colocado em prática até o fim deste ano. Segundo ela, a iniciativa se associaria a outros projetos para reduzir a pobreza na África.
Mas, para isso, os chefes de Estado que se reunirão em Nova York em setembro para revisar os avanços em relação às metas de desenvolvimento da ONU e os ministros do Comércio que se encontrarão em Hong Kong em dezembro terão de agir com firmeza.
O compromisso com o acesso "sem imposto e sem quotas" aos bens dos países pobres e o pacote de serviços podem fazer parte do acordo final da Rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio, afirmou Puri.