O tribunal da Organização das Nações Unidas (ONU) para a ex-Iugoslávia condenou na sexta-feira um ex-general sérvio da Bósnia a 20 anos de prisão por ter deliberadamente alvejado civis durante o cerco a Sarajevo, na guerra de 1992 a 1995.
Stanislav Galic, 60, é o primeiro réu desse tribunal a ser julgado exclusivamente pela participação nos 44 meses de sítio à capital bósnia. Os promotores disseram que as tropas servo-bósnias transformaram a cidade naquela época em um "inferno medieval".
Sarajevo se tornou sinônimo de guerra durante o cerco. As forças sérvias entrincheiradas nos morros vizinhos disparavam aleatoriamente contra ônibus, bondes, jardins e funerais, matando homens, mulheres e crianças. As imagens de TV dos prédios em ruínas e dos corpos de civis chocaram o mundo.
Por maioria, os juízes do tribunal de Haia condenaram Galic por cinco acusações de crimes contra a humanidade e crimes de guerra, o que inclui homicídios e atos desumanos.
Mas o ex-general foi absolvido em outras duas acusações. Ele comandou o batalhão Romanija, que cercou Sarajevo com 18 mil homens entre 1992 e 1994.
-Centenas de civis foram mortos e milhares ficaram feridos por incidentes envolvendo franco-atiradores e foguetes no período coberto pelo indiciamento-disse o juiz Alphons Orie.
-Nenhum civil de Sarajevo estava a salvo em lugar algum- completou.
De acordo com a sentença, "a campanha contra civis tinha a intenção primordial de aterrorizar a população civil. Ele (Galic) na verdade controlou o ritmo desses crimes".
O cerco a Sarajevo custou 10.500 vidas, a maioria de muçulmanos, incluindo quase 1.800 crianças. Cerca de 50 mil pessoas ficaram feridas nesse período, marcado por atrocidades como a explosão de morteiros em um mercado e em um jogo de futebol.
Um dos três juízes discordou da sentença, dizendo que preferia uma pena de 10 anos. Segundo esse juiz, Rafael Nieto-Navia, o processo não provou que as forças de Galic agiam deliberadamente contra civis nem que a campanha para aterrorizar civis estivesse sob o mandato do tribunal.
Mas ele admitiu que Galic tinha como saber dos crimes e deveria ter tomado providências para impedi-los e para punir os responsáveis.
A guerra da Bósnia, que opôs principalmente muçulmanos e croatas contra os sérvios, foi um dos vários conflitos que levaram ao desmoronamento da Iugoslávia na década passada. A guerra terminou em 1995, com um acordo que dividiu a Bósnia em duas regiões com grande autonomia - uma federação muçulmano-croata e uma república dos sérvios - sob um governo unificado.