Rio de Janeiro, 17 de Agosto de 2026

ONU: Brasil pode se tornar produtor de ecstasy

O Brasil pode se tornar um grande produtor de ecstasy e anfetaminas para uso ilícito, alerta a Agência das Nações Unidas para Crime e Drogas. Essas drogas, chamadas sintéticas porque são produzidas em laboratórios, já estão em segundo lugar em consumo no mundo, ficando atrás apenas da maconha. (Leia Mais)

Sábado, 04 de Outubro de 2003 às 10:23, por: CdB

O Brasil pode se tornar um grande produtor de ecstasy e anfetaminas para uso ilícito, alerta a Agência das Nações Unidas para Crime e Drogas.

Essas drogas, chamadas sintéticas porque são produzidas em laboratórios, já estão em segundo lugar em consumo no mundo, ficando atrás apenas da maconha.

"Hoje o Brasil não é um produtor grande de anfetaminas no âmbito ilegal mas poderia se tornar um tão forte quanto a Holanda porque reúne o conhecimento e os insumos necessários", afirma Bo Mathiesen, um dos responsáveis pelo mais recente relatório da ONU sobre o consumo de ecstasy e anfetaminas.

Os produtos químicos são a parte mais cara da produção de ecstasy e anfetaminas, já que a sintetização pode ser feita em laboratórios relativamente simples. Daí o temor: assim como acontece na produção de cocaína, substâncias como a anfetamina, amplamente usada no Brasil, poderiam ser desviadas para o mercado ilegal.

Anfetamina 'legal'

Atualmente, porém, é o consumo legal de anfetaminas no país que mais preocupa a ONU e a Organização Mundial de Saúde (OMS).

"Há vários usos preocupantes de anfetaminas, como remédios para a perda de peso e estimulantes, que recebem pouca atenção", afirma Maristela Monteiro, coordenadora do programa de combate ao abuso de drogas da OMS.

Segundo Maristela, a maioria dos países já não usa anfetamina como inibidor de apetite e o mesmo deveria ser feito no Brasil.

A ONU e a OMS consideram as anfetaminas tão perigosas quanto o ecstasy, que, indicam estudos, podem causar alterações nas funções cerebrais, como a perda de memória, e provocar distúrbios no sistema nervoso, levando à depressão e à síndrome de pânico.

No caso das anfetaminas, especialistas alertam ainda que a substância causa dependência e que pode levar ao desenvolvimento de psicoses.

Ecstasy

De qualquer forma, o consumo de ecstasy no Brasil vem aumentando nos últimos anos, principalmente por causa da difusão da música eletrônica em raves (festas ao ar livre) e danceterias.

Até maio deste ano, a Polícia Federal havia apreendido 54.068 comprimidos de ecstasy.

Combinado a uma única apreensão de 10 mil comprimidos feita em Pará, em setembro, o número já supera o máximo registrado, 59.612, em 1999.

O número é baixo se comparado, por exemplo, com os 2 milhões de pílulas de ecstasy consumidos semanalmente na Grã-Bretanha - segundo maior consumidor europeu, atrás da Irlanda.

No entanto, o psicólogo Murilo Battisti, especialista em dependência química e autor de um estudo sobre o consumo de ecstasy em São Paulo, afirma que é difícil estimar o número de usuários, porque há o que diz ser um furo estatístico no que se refere ao uso da droga.

"As estatísticas não têm alcance para medir o que é ainda um gueto, formado por usuários, geralmente jovens, de classes média e alta", explica Battisti.

Segundo o pesquisador, a droga ainda é muito cara para usuários mais pobres. Um comprimido - geralmente vindo dos Estados Unidos e da Europa - custa cerca de R$ 40. Em Londres, uma pessoa pode comprar a droga pelo preço equivalente ao de uma cerveja.

O inibidor do preço alto, no entanto, deixaria de existir se o Brasil realmente se tornasse um produtor da droga, como teme a ONU.

É difícil saber, no entanto, se o ecstasy se difundiria tanto no Brasil sem uma popularização da música eletrônica na escala que ocorreu na Europa e na Ásia.

"O consumo continua principalmente ligado à cena eletrônica, embora tenha migrado para outros contextos", afirma Battisti.

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