Guerrilheiros aterrorizam a população, impondo um "clima de medo", e o fundamentalismo religioso está novamente ganhando espaço no Afeganistão, 18 meses depois de as tropas norte-americanas terem participado da derrubada do regime islâmico do Taliban, disse nesta terça-feira a entidade Human Rights Watch. Mesmo a abertura de escolas para mulheres - um dos efeitos colaterais mais positivos da queda do Taliban - está novamente ameaçada, disse a entidade, que tem sede em Nova York. "A comunidade internacional permitiu que comandantes de guerrilha e dos militares assumissem o controle de grande parte do país", disse uma representante da ONG, Loubna Freih, à Comissão de Direitos Humanos da ONU, que está encerrando sua sessão anual em Genebra. Ela disse que, em vez de garantirem a segurança, os comandantes de guerrilhas estão aterrorizando a população em várias regiões, com seqüestros, prisões arbitrárias, assaltos, extorsões e agressões generalizadas. Freih disse que em alguns locais os comandantes mantêm a lei "criando um clima de medo, não diferente do imposto pelo Taliban". Segundo ela, adversários políticos, jornalistas e pessoas comuns "estão sendo atacadas e intimidadas a ficarem quietas". Nesta terça-feira, um comandante regional do Exército afegão disse que atualmente o governo só controla a capital, Cabul, e seus arredores. Para mudar isso, segundo ele, o governo teria que tomar medidas corajosas contra os comandantes de guerrilhas. Mas segundo Freih os soldados e a polícia - que foram treinados por tropas internacionais - "regularmente raptam e estupram mulheres, meninas e meninos". Além disso, segundo ela, "o fundamentalismo religioso está em alta, com novas restrições à liberdade de expressão e movimento de mulheres e meninas. Os ganhos na educação estão agora ameaçados, pois muitos pais, temendo ataques de soldados e outros atiradores, mantêm suas filhas fora da escola", disse. EDUCAÇÃO FEMININA No regime fundamentalista do Taliban, as mulheres não tinham acesso a escolas e hospitais, e só podiam sair às ruas cobertas com a burqa (vestimenta que encobre o rosto) e acompanhadas por um parente homem. Os Estados Unidos intervieram no Afeganistão para vingar os atentados de 11 de setembro de 2001, atribuídos à rede Al Qaeda, que na época tinha seu reduto no país. O governo Bush hoje apresenta a educação feminina como um dos sucessos da operação. Ainda há cerca de 11 mil soldados dos Estados Unidos e de seus aliados no Afeganistão, caçando militantes da Al Qaeda e do Taliban, inclusive seus líderes, Osama bin Laden e mulá Muhammad Omar. A Comissão de Direitos Humanos da ONU estuda substituir o seu atual investigador no país, que tem mandato para examinar a situação dos direitos humanos, por um "especialista", com atribuições menos definidas. Fontes próximas à comissão dizem que os Estados Unidos se opõem a qualquer resolução sobre o Afeganistão neste ano, assim como à criação de uma comissão internacional de inquérito sobre abusos cometidos no passado naquele país. Em seu discurso, Freih disse que a criação dessa comissão seria "crucial para estabelecer o estado de direito". Sem ela, afirmou, "os esforços para romper um ciclo de impunidade e a opressão das armas não devem ter sucesso".
ONG diz que "Clima de medo" domina o Afeganistão
Terça, 22 de Abril de 2003 às 14:39, por: CdB