O Brasil só perde para os Estados Unidos em termos de maior produtor de armas de fogo do ocidente. Este foi o resultado da pesquisa realizada por Pablo Dreyfus, Benjamin Lessing e Julio Cesar Purcena da Viva Rio, uma organização não-governamental. Porém, eles ressaltam que, apesar da posição no ranking, isto é apenas "uma parte infinitesimal da atividade econômica total."
Dreyfus, Lessing e Purcena argumentam que o Brasil exportou US$ 318,8 milhões em armas para os Estados Unidos entre 1993 e 2003; US$ 40,1 milhões para a Bélgica e US$ 34 milhões para a Suécia.
O documento relata que, em 2003, a indústria de armas exportou US$ 94 milhões. Neste ano, segundo a Secretaria de Comércio Exterior, o país exportou US$ 74 bilhões.
- Este dado é especialmente importante como argumento contra a restrição de vendas de armas a civis e outras medidas de controle de armas. Eles dizem que a indústria de armas representa uma grande fonte de emprego e geração de renda para os brasileiros - afirmam.
Segundo o pesquisador Marcelo de Sousa Nascimento, as armas que não são exportadas ficam nas mãos de militares. Estimativas indicam que 64.995 oficiais militares e sargentos reformados possuem 129.990 armas de pequeno porte.
Entre os policiais da ativa, o número quadruplica. Os 476.169 profissionais em atividade possuem, pelo menos, uma arma particular. Cada policial aposentado mantêm, em média, duas armas em seu poder. Os números são bem maiores do que o total de armas usado pela Polícia Federal. De acordo com os pesquisadores, existem 17.550 armas em posse da instituição.
Entre os civis, no entanto, não existem estatísticas atualizadas, porque os dados relativos aos anos 50, 60 e 70 estão guardados em arquivos desorganizados e danificados pelo tempo.
- O papel estraga, mas as armas permanecem. Armas de fogo compradas nos anos 50, 60 e 70 podem estar em perfeitas condições de uso atualmente - explicam os pesquisadores.
Para exemplificar a situação, eles lembram que os revólveres Taurus (o tipo mais comum de arma registrada e apreendida no Brasil) foram recolhidos pelos postos de coleta do Viva Rio durante a campanha de entrega voluntária de armas de agosto a dezembro de 2004. Segundo eles, 85% do material foi manufaturado antes de 1981.
- Esta análise é possível porque esta foi a data em que a empresa começou a marcar seus revólveres com combinações alfanuméricas - relembra.
Coordenadora de Estudo sobre Legislação de Armas de Fogo da ONG Viva Rio, Carolina Lootty, defende a opinião dos pesquisadores. Ela também acredita que militares têm privilégios históricos na compra de armas. Carolina conta que oficiais e suboficias militares têm direito a compra simplificada de armas e munição.
- Começou, no decreto de 1965, a cultura de leniência quase que total. Militares não precisavam registrar suas armas junto à polícia, e a compra de armas e munição dependeria unicamente de autorização do comandante, chefe ou diretor a que o militar estivesse subordinado - relembra. As facilidades só se restringiam aos militares classificados como de "mau comportamento".
A coordenadora acredita que, em uma sociedade democrática, cada indivíduo deve decidir sobre a possibilidade de ter ou não armas de fogo.
- Por isto penso que o referendo marcado para outubro é importante. Não apenas porque é a primeira vez que este refinadíssimo mecanismo de democracia é realizado no país, mas também porque decidirá sobre assunto tão polêmico e vital à sociedade brasileira de hoje. O referendo mobilizará os eleitores. Sua inclusão no Estatuto já foi um avanço ao encontro de uma democracia mais sólida no Brasil - analisa.
Brasil é lider mundial em mortes por arma de fogo
Em 2002, morreram 38.088 pessoas vítimas de armas de fogo no país, seja por homicídio, suicídio ou por acidentes. Em número absoluto, esse quadro supera Colômbia, África do Sul, El Salvador