Rio de Janeiro, 29 de Outubro de 2026

Onde estávamos há dez anos?

Sexta, 09 de Setembro de 2011 às 08:25, por: CdB

Creio que não há ninguém que não se recorde onde estava e oque fazia no dia 11 de setembro de 2001, há dez anos. Assim como aconteceu comoutros fatos marcantes da história recente: o dia do assassinato de Kennedy,por exemplo; ou do atentado à vida do Papa João Paulo II.

Lembro bem de todos. Mas do último especialmente. Minhafilha mais velha trabalhava em um banco em plena Manhattan. Meu filho fazia mestradoem Georgetown, Washington DC. Eu participava de um seminário de místicacomparada em Juiz de Fora, no delicioso e sossegado seminário da Floresta.Reunidos estudantes de pós-graduação, pesquisadores e professores de váriasuniversidades, refletíamos sobre os textos dos grandes místicos cristãos,sufis, judeus e hinduístas.

E, de repente, o telefonema de meu marido, chamando do Riode Janeiro, ao meio dia. Fui atender com o coração meio apertado. Ele raramenteme chama no meio de um dia de trabalho. Atendi..., mas não entendi. Ele davaexplicações sobre já haver falado com nossos dois filhos e que estavam todosbem etc... Eu ouvia calada, enquanto me perguntava: Mas, por que não estariambem, meu Deus? Foi quando passei do silêncio à pergunta direta.

Sua resposta veio em tom de indignação: O mundo está caindoe você não sabe de nada? Não sabia realmente. Ali não temos televisão e otelefone é escasso. Os celulares pegam mal, o sinal é baixo. Estávamosrealmente protegidos, até aquele instante, da terrível notícia que dividia ahistória contemporânea do Ocidente entre um despreocupado e algo arroganteantes e um traumático e apavorante depois. O centro do império americano foraatacado de maneira inesperada e trágica. As duas torres gêmeas do World Trade Center,símbolo fálico do poderio econômico e financeiro estadunidense, esfacelavam-sesob os olhos atônitos da população mundial, deixando 3 mil vítimas.

Durante estes dez anos que se seguiram, não paramos dereferir-nos a esse acontecimento que feriu de morte o início do novo milênio edo recém estreado século XXI. Com várias atitudes e reações diferentes, emampla gama emocional, indo desde a revanche até o dom solidário da vida e ogesto edificante do perdão gratuito e digno. Em meio a este turbilhão desentimentos e emoções, registro a minha: o não entendimento.

Há certas coisas na história humana que não entendo, como,por exemplo, que uma ideologia absurda e ensandecida consiga firmar-se a pontode enviar para a morte certa e cruel seis milhões de pessoas. A Shoa, oholocausto nazista da segunda guerra mundial, sempre foi um mistério para mim.Quanto mais leio e estudo os dados objetivos que a história e a ciênciapolítica nos fornecem, menos entendo. Como é possível que o ser humano seja tãocruel e predador? Como é possível que a consigna de eliminar da face da terratodo um povo possa prevalecer e ser justificada por tanta gente? Como épossível que isto tenha de fato acontecido?

Com o macabro acontecimento de dez anos atrás passa-se omesmo. Estudam-se as hipóteses, sobre elas se reflete, algumas parecem maisverossímeis que outras. Mas confesso que custo a entender como seres humanosacabam com sua vida e a de várias outras pessoas inocentes daquela maneira?Como é possível que aquilo tenha realmente acontecido? Como a violência humanapode chegar a este ponto e manifestar-se com tal requinte e brutalidade?

Hoje, dez anos depois, essa perplexidade continua aacompanhar-me. De posse de outros elementos acumulados ao longo desta décadacreio poder chegar a algumas conclusões. E uma delas é verificar que a vingançae a revanche não levam a nada nem nada previnem. As guerras unilateraisdesfechadas pela nação agredida contra várias outras só fez aumentar eperpetuar o mar de sangue que o ataque às Torres Gêmeas inaugurou de forma tãosombria. Conseguiram apenas que o sangue derramado em Nova York e Washingtonagora corra como caudaloso rio no Afeganistão, no Paquistão, no Iraque.

Assim como dos escombros da Shoa emergiu um novo discursosobre Deus que o identifica com as vítimas e o revela como salvador de todos,inclusive dos carrascos, também pode acontecer algo parecido com as cinzas do11 de setembro. Urge aprender as lições do evento para encontrar um novodiscurso e, sobretudo, uma nova práxis – feita de perdão e misericórdia - capazde varrer da história humana a violência assassina que a todos vitima e agridetoda forma de vida. Mais do que perguntar onde estávamos há dez anos, talvezmais urgente seja perguntar onde estamos agora e o que estamos fazendoconcretamente para construir a paz.

[Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor”(Ed. Rocco).
Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibidaa reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ouimpresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária(mhpal@terra.com.br)].

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